América Latina aprofunda virada à direita: agendas pró-mercado, endurecimento da segurança e rearranjos geopolíticos redefinem o cenário regional

A América Latina vive, em 2026, uma reconfiguração política de grande envergadura, caracterizada pela perda de centralidade de projetos progressistas que dominaram o continente desde o início do século e pela ascensão consistente de governos de direita e centro-direita. Impulsionada por inflação persistente, baixo crescimento econômico, deterioração da segurança pública e fadiga institucional, essa virada — frequentemente descrita como uma “revolução da direita” — não se organiza como um bloco ideológico uniforme, mas como um movimento plural, que combina liberalismo econômico, conservadorismo social e pragmatismo geopolítico. O fenômeno já produz efeitos concretos sobre políticas domésticas, relações exteriores e o equilíbrio democrático regional.

Durante as décadas de 2000 e 2010, a América Latina consolidou-se internacionalmente como território de experiências de esquerda associadas ao Socialismo do Século XXI, sustentadas por expansão do gasto público, programas de transferência de renda e retórica antiamericana, favorecidas por um ciclo positivo de commodities. Com o fim desse ciclo, emergiram desequilíbrios fiscais, aumento da dívida, escândalos de corrupção e incapacidade de sustentar crescimento de longo prazo.

A perda de influência de figuras históricas como Fidel Castro e Hugo Chávez deixou um vácuo simbólico e programático. Esse espaço passou a ser ocupado por lideranças que rejeitam o estatismo, criticam a expansão contínua do Estado e defendem uma ruptura — parcial ou total — com o modelo político predominante nas duas décadas anteriores.

As direitas latino-americanas: convergência eleitoral, fragmentação programática

A virada conservadora não corresponde a um projeto único. Ela se expressa por correntes distintas, unificadas mais pelo repúdio ao status quo do que por um consenso ideológico estruturado.

Direita tecnocrática e liberal

Essa vertente prioriza disciplina fiscal, previsibilidade regulatória e integração econômica internacional. Seu discurso é orientado por indicadores macroeconômicos, busca credibilidade junto a mercados financeiros e organismos multilaterais e evita confrontos culturais explícitos. A promessa central é restaurar crescimento e estabilidade por meio da racionalidade econômica.

Conservadorismo nacional-populista

Outra corrente mobiliza narrativas de ordem, soberania e autoridade, com linguagem polarizadora e crítica aberta a elites políticas, tribunais, imprensa e organismos internacionais. O Estado é redefinido não como provedor social, mas como instrumento de controle, sobretudo no combate ao crime e à desordem.

Antissistema e personalismo

Há ainda lideranças que se apresentam como ruptura integral com a política tradicional, rejeitando tanto a esquerda quanto a direita institucional. O apoio popular decorre da comunicação direta, do uso intensivo de redes sociais e da promessa de combate implacável à corrupção, ainda que com programas pouco detalhados e forte centralização de poder.

Economia: do intervencionismo à austeridade como projeto político

A agenda econômica é o eixo estruturante da virada à direita. Após anos de inflação elevada, déficits recorrentes e estagnação, os novos governos defendem:

  • Ajuste fiscal estrutural e redução do tamanho do Estado;
  • Abertura comercial e acordos bilaterais pragmáticos;
  • Ambiente favorável ao investimento estrangeiro, com desburocratização e segurança jurídica.

Na Argentina, o governo Milei tornou-se referência regional ao promover um choque liberal que reduziu drasticamente a inflação, embora com impactos sociais relevantes no curto prazo, como retração do consumo e tensões trabalhistas. O respaldo político externo, inclusive de lideranças conservadoras globais como Donald Trump, ampliou a projeção internacional do experimento argentino, acompanhado com interesse por empresários como Elon Musk.

Segurança pública: legitimidade baseada na promessa de ordem

A escalada da violência e do narcotráfico converteu a segurança pública no principal motor eleitoral da nova direita. A produção de cocaína triplicou na última década, enquanto facções transnacionais ampliaram sua atuação em países historicamente menos violentos, como Equador e Costa Rica.

El Salvador representa o caso mais emblemático. Sob Bukele, o país registrou queda histórica nos homicídios, sustentada por prisões em massa, estados de exceção e construção de megacomplexos penitenciários. O modelo garantiu popularidade elevada, mas gerou críticas sobre:

  • Fragilização de garantias constitucionais;
  • Concentração de poder no Executivo;
  • Normalização de medidas emergenciais como política permanente.

Política externa: pragmatismo e realinhamento estratégico

No plano internacional, a América Latina passa por seu realinhamento mais significativo em décadas. A lógica de blocos ideológicos cede lugar a uma diplomacia orientada por interesses nacionais imediatos. Observa-se:

  • Reaproximação estratégica com os Estados Unidos, especialmente em comércio e segurança;
  • Crescente ceticismo em relação à China, diante de pressões por limitar investimentos em setores estratégicos;
  • Distanciamento gradual de regimes autoritários regionais antes tratados como aliados naturais.

A integração regional perde densidade política, enquanto acordos bilaterais e parcerias específicas ganham protagonismo.

Bases sociais e culturais da virada

Pesquisas do Latinobarómetro indicam o maior nível de identificação com a direita em vinte anos. Entre os fatores estruturais que sustentam a mudança destacam-se:

  • Expansão do evangelicalismo, com influência direta em pautas culturais e eleitorais;
  • Frustração prolongada com serviços públicos ineficientes;
  • O colapso econômico e institucional de Venezuela e Cuba, que desacreditou modelos socialistas perante amplos segmentos da população.

Uma virada profunda, mas ainda instável

Apesar da amplitude da mudança, a virada à direita permanece politicamente frágil. A austeridade econômica exige tempo para produzir resultados sociais perceptíveis, enquanto o endurecimento penal pode gerar tensões democráticas se não for acompanhado de reformas institucionais sólidas.

A fragmentação interna das direitas, a ausência de projetos sociais consistentes e a resistência de parlamentos e tribunais independentes limitam a capacidade de implementação de reformas profundas. Caso os novos governos não consigam combinar crescimento, redução da violência e preservação institucional, o continente pode assistir à reedição do ciclo de frustração e alternância populista, sob novas roupagens ideológicas.

*A reportagem é baseada no artigo “A Revolução da Direita na América Latina: As forças que estão remodelando a região na era Trump”, de autoria de Brian Winter, publicado na revista Foreign Affairs, em 16 de dezembro de 2025.

*Brian Winter é o editor-chefe da Americas Quarterly.

Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia

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