Empresário investigado na Operação Overclean diz ter “comprado” apoio de mais de 50 prefeitos na Bahia, indicam mensagens analisadas pela PF
Na quinta-feira (12/02/2026), mensagens atribuídas ao empresário Evandro Baldino do Nascimento, investigado em diversas fases da Operação Overclean, passaram a integrar inquéritos da Polícia Federal que apuram suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro, fraude em licitações e desvio de emendas parlamentares. O material indica que o empresário teria afirmado a interlocutores ter “comprado” apoio de dezenas de prefeitos baianos, mencionando negociações com mais de 50 municípios por meio de repasses financeiros, revela reportagem do site Metrópoles, assinada por Mirelle Pinheiro.
Conversas apontam acordos com dezenas de prefeituras
De acordo com as mensagens obtidas pelas investigações, Baldino teria relatado a um interlocutor que “já fez 38 municípios” e que estaria avançando para outros 60, em referência a supostas negociações com gestores municipais.
Segundo o conteúdo, os pagamentos seriam realizados por meio de depósitos fracionados em dinheiro em contas indicadas pelos próprios prefeitos. Em uma das conversas, o empresário pergunta a um gestor municipal “como mandar a encomenda” e, na sequência, encaminha imagens de comprovantes bancários.
Entre os interlocutores citados aparece o prefeito de Riacho de Santana, João Vitor (PSD), que chegou a ser afastado do cargo durante as investigações, mas retornou ao posto por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF). O gestor nega irregularidades e afirma confiar no esclarecimento dos fatos.
Quem é o empresário investigado
Evandro Baldino do Nascimento é ex-presidente da Câmara de Vereadores de Várzea do Poço (BA) e sócio da Construtora Impacto, empresa alvo de mandados de busca e apreensão na quinta fase da Operação Overclean.
Ele foi preso na primeira fase da operação, em dezembro de 2024, e posteriormente colocado em liberdade, permanecendo como investigado. Relatórios da Polícia Federal apontam Baldino como articulador logístico e operacional de contratos suspeitos em diversos municípios baianos, incluindo Campo Formoso e Oliveira dos Brejinhos.
As investigações também indicam proximidade do empresário com o deputado federal Dal Barreto (União-BA), outro alvo da operação. Mandados já foram cumpridos contra o parlamentar por ordem do STF, que investiga a possível integração entre núcleos político e empresarial para direcionamento de licitações e execução de obras com recursos federais.
O alcance da Operação Overclean
A Operação Overclean apura um esquema de desvio de verbas públicas, com origem principalmente em emendas parlamentares, por meio de:
- licitações direcionadas;
- empresas de fachada;
- superfaturamento de obras;
- pagamento de propina a agentes públicos.
Em uma das fases mais recentes, a Justiça determinou o bloqueio de R$ 85,7 milhões de investigados. A Polícia Federal estima que a organização criminosa tenha movimentado cerca de R$ 1,4 bilhão em quatro anos.
Entre os investigados estão:
- empresários;
- prefeitos;
- vereadores;
- servidores públicos;
- operadores financeiros;
- assessores parlamentares.
Os relatórios citam ainda os deputados Félix Mendonça Júnior (PDT-BA) e Elmar Nascimento (União-BA), que negam irregularidades.
Emendas, obras paralisadas e empresas sob investigação
As apurações apontam casos de estradas que receberam milhões em emendas e não foram asfaltadas, além de obras abandonadas e trabalhadores sem pagamento.
Entre as empresas investigadas estão:
- Allpha Pavimentações;
- Construmaster (atual Vieira Infraestrutura);
- Construtora Impacto, ligada a Baldino.
Segundo a PF, parte dos recursos desviados teria retornado ao esquema na forma de propina, financiamento de campanhas e pagamentos diretos a agentes públicos.
Diálogos sob análise da Polícia Federal
A Polícia Federal apreendeu celulares, computadores e documentos de operadores do esquema. Em uma das fases, foram encontrados diálogos entre Baldino e assessores políticos discutindo valores, formas de pagamento e divisão de recursos.
Em trechos das conversas, o empresário afirma:
- “Ibipitanga é PIX. Paratinga é PIX. Estou tentando falar com Alan pra ver como vai ser o dele.”
- Em outra mensagem, um interlocutor responde: “Ibipitanga tá cheio de platita.”
Os diálogos reforçam a suspeita de um mecanismo sistemático de repasses a prefeitos, vinculado a municípios beneficiados por emendas parlamentares.
Prefeito investigado retorna ao cargo após decisão do STF
O prefeito de Riacho de Santana, João Vitor, reassumiu o cargo após decisão do ministro Kassio Nunes Marques, do STF, depois de cerca de 110 dias de afastamento.
O retorno foi marcado por carreata e fogos de artifício, realizada em 2 de fevereiro de 2026. Apesar da decisão judicial, o gestor segue formalmente investigado e aparece em diálogos analisados pela Polícia Federal.
O município figura entre os entes cujas movimentações financeiras e contratos estão sob análise. Os crimes apurados incluem:
- organização criminosa;
- corrupção ativa e passiva;
- peculato;
- fraude em licitações;
- lavagem de dinheiro;
- embaraço às investigações.
Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia




