FIFA aprova reforma histórica e autoriza jogadoras afegãs a representar o país em competições oficiais

A FIFA aprovou na quarta-feira (29/04/2026) uma reforma inédita em seu Regulamento de Governança que permite a jogadoras afegãs representarem oficialmente seu país em competições internacionais, mesmo sem o registro formal pela federação nacional. A decisão, articulada em coordenação com a Confederação Asiática de Futebol (AFC), cria um mecanismo excepcional para garantir a participação de atletas em contextos institucionais adversos, assegurando acesso ao futebol internacional com reconhecimento oficial.

Reforma amplia poder do Conselho da FIFA em situações excepcionais

A mudança aprovada concede ao Conselho da FIFA autoridade para estabelecer ou aprovar o registro de seleções nacionais ou representativas em circunstâncias excepcionais, especialmente quando uma associação membro não consegue cumprir essa função. O objetivo central é evitar que atletas sejam excluídos do cenário internacional por fatores alheios à sua vontade, em consonância com os princípios de universalidade, inclusão e não discriminação.

Segundo o presidente da entidade, Gianni Infantino, a decisão representa um marco no esporte global. Ele afirmou que a medida traduz em ação concreta o compromisso institucional de garantir o direito de mulheres e meninas ao futebol competitivo. A iniciativa também reafirma o papel da FIFA como agente regulador capaz de intervir em cenários de exceção.

A nova diretriz tem aplicação imediata, embora dependa de etapas administrativas e operacionais conduzidas pela própria FIFA, incluindo o registro das equipes e a definição de uma estrutura esportiva adequada.

Afghan Women United passa a representar oficialmente o Afeganistão

A reforma permite que jogadoras vinculadas à equipe Afghan Women United, apoiada e financiada pela FIFA, passem a representar oficialmente o Afeganistão em competições internacionais. O grupo reúne atletas que vivem fora do país, muitas delas impossibilitadas de atuar em território afegão devido às restrições vigentes.

Criada como parte da Estratégia de Ação da FIFA para o Futebol Feminino Afegão, aprovada em 2025, a equipe já operava como plataforma de desenvolvimento esportivo. Com a nova decisão, passa a ter status competitivo oficial, com direito a participação em torneios reconhecidos.

Durante o período de transição, estimado em até dois anos, a FIFA manterá apoio integral às atletas, incluindo recursos técnicos, humanos e financeiros, com foco na segurança, desempenho e continuidade da prática esportiva.

Repercussão internacional destaca impacto da medida

A decisão foi amplamente elogiada por integrantes do grupo consultivo independente da estratégia da FIFA. A ex-jogadora internacional Nadia Nadim classificou a medida como um reconhecimento das atletas como profissionais de elite, com direito pleno à visibilidade e à competição.

A ex-capitã da seleção afegã, Khalida Popal, destacou o significado simbólico da decisão, associando a participação internacional a valores como identidade, dignidade e esperança. Para ela, a iniciativa representa uma resposta concreta a uma demanda histórica das jogadoras.

Já Sport & Rights Alliance, por meio de sua diretora executiva Andrea Florence, avaliou que a reforma estabelece um precedente global ao demonstrar que órgãos esportivos podem adaptar suas normas para proteger direitos humanos em contextos extraordinários.

Próximos passos incluem estruturação e calendário esportivo

Com a aprovação da emenda, a FIFA inicia a implementação prática da medida, incluindo o registro formal da equipe e a organização de calendário competitivo. O próximo período de treinamentos do Afghan Women United está previsto para ocorrer entre 1º e 9 de junho, na Nova Zelândia, com partidas amistosas programadas, incluindo confronto contra a seleção das Ilhas Cook.

A entidade também deverá definir diretrizes de governança, elegibilidade e logística para garantir que a participação ocorra dentro dos padrões internacionais exigidos.

Precedente institucional e implicações no esporte global

A decisão da FIFA inaugura um novo paradigma de governança esportiva, ao flexibilizar normas tradicionais em nome da proteção de direitos fundamentais. Trata-se de uma resposta institucional a um contexto político e social complexo, no qual a atuação das federações nacionais se mostra inviável.

Do ponto de vista estrutural, a medida levanta questionamentos sobre os limites da intervenção da FIFA em associações membros e o equilíbrio entre soberania esportiva nacional e princípios universais. Ao mesmo tempo, consolida a entidade como agente ativo na promoção de inclusão, ainda que em caráter excepcional.

No cenário internacional, o precedente pode influenciar outras modalidades esportivas e organismos reguladores, sobretudo em situações de conflito, crise institucional ou restrições de direitos. A efetividade da iniciativa dependerá, no entanto, da capacidade da FIFA de garantir continuidade, segurança e reconhecimento pleno às atletas envolvidas.

Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia

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