Raul Seixas completaria 81 anos: memórias de Pacheco Maia resgatam infância, família e legado do Maluco Beleza
Neste domingo, 28/06/2026, data em que Raul Santos Seixas completaria 81 anos, o jornalista e memorialista José Pacheco Maia resgatou lembranças pessoais, entrevistas e histórias familiares sobre o artista baiano nascido em Salvador, morto em 21/08/1989, aos 44 anos, e consagrado como um dos nomes centrais do rock brasileiro. O relato, de caráter afetivo e documental, revisita episódios da infância na Avenida Sete de Setembro e na Praia da Boa Viagem, encontros com Maria Eugênia Santos Seixas, mãe do cantor, e aspectos pouco conhecidos da trajetória familiar que ajudaram a formar o imaginário em torno do chamado Maluco Beleza.
Homenagem aos 81 anos de Raul Seixas recupera memória afetiva e cultural
O texto de Pacheco Maia parte de uma efeméride: o aniversário de nascimento de Raul Seixas. Nascido em 28 de junho de 1945, em Salvador, o cantor, compositor, produtor e multi-instrumentista tornou-se uma das figuras mais influentes da música brasileira no século XX, especialmente por unir rock, baião, crítica social, filosofia popular, irreverência e linguagem contracultural.
A homenagem, contudo, não se limita à dimensão artística. O autor estrutura sua memória a partir de vínculos pessoais, entrevistas realizadas com familiares e lembranças de lugares associados à infância do artista. O resultado é um registro que combina jornalismo cultural, depoimento memorialístico e preservação de aspectos da vida privada de Raul Seixas, sempre a partir da perspectiva de quem acompanhou, pesquisou e ouviu fontes diretamente ligadas ao cantor.
Salvador como matriz biográfica de Raul Seixas
Avenida Sete, Boa Viagem e a cidade que formou Raulzito
Pacheco Maia destaca a origem soteropolitana de Raul Seixas e situa seu nascimento na Avenida Sete de Setembro, uma das vias mais simbólicas de Salvador. Segundo o relato, Raul nasceu na casa dos avós maternos, em trecho localizado entre o Rosário e a Praça da Piedade, numa época em que a avenida reunia comércio, serviços, instituições e residências.
O texto descreve uma Salvador ainda marcada pela convivência entre moradia e atividade econômica no mesmo imóvel. Era comum que comerciantes residissem sobre as lojas instaladas no térreo. No caso da família materna de Raul, conforme o relato, funcionava no local um estabelecimento dedicado à venda e assistência técnica de geladeiras.
Décadas depois, o imóvel teria abrigado o restaurante Casa Portuguesa. Pacheco Maia recorda ter almoçado no local e circulado pelo ambiente onde Raulzito nasceu, embora reconheça que o espaço já estivesse bastante modificado. A lembrança reforça a relação entre memória urbana e biografia artística: a cidade não aparece apenas como cenário, mas como território formador de identidade.
Episódios de infância ajudam a compor o imaginário sobre o artista
Entre as histórias relembradas está o episódio em que Raul, ainda criança, teria ficado preso em uma geladeira após uma brincadeira com o irmão Plínio Santos Seixas, chamado no relato de Plininho. A narrativa, já conhecida entre admiradores do artista, é apresentada como um dos fatos que teriam deixado sequela duradoura: a claustrofobia.
Segundo a memória familiar citada por Pacheco Maia, a mãe de Raul, Maria Eugênia, percebeu a ausência do filho, perguntou ao caçula onde estava o irmão e conseguiu socorrê-lo a tempo. A experiência, marcada por falta de oxigênio e desfalecimento, teria acompanhado Raul Seixas ao longo da vida.
O relato também recupera episódios da fase em que a família morava na Praia da Boa Viagem, na Rua Itapicuru. Maria Eugênia teria contado ao autor que Raulzito e Plininho saíam de madrugada para “furar onda”, expressão interpretada no texto como possível referência ao hábito de pegar jacaré no mar. A lembrança insere o artista no cotidiano de uma Salvador praiana, familiar e popular, distante da imagem posterior do mito nacional.
Entrevistas com Maria Eugênia Santos Seixas deram base ao relato
Pacheco Maia afirma que seu interesse por Raul Seixas o levou a gravar mais de sete horas de entrevistas com Maria Eugênia Santos Seixas, em dias diferentes, no início dos anos 1990. Os encontros ocorreram no apartamento dela, na Avenida Sabino Silva, no edifício Vivendas do Vale, em Salvador.
A aproximação foi intermediada por dois amigos ligados a fã-clubes do artista, identificados como Laio e Alexandre. O autor descreve Maria Eugênia como uma mulher de memória prodigiosa, grande cordialidade e presença marcante. Já viúva, ela vivia acompanhada por um beagle que circulava pela sala durante as conversas.
Antes desses encontros, Pacheco Maia já havia procurado Maria Eugênia para gravar uma entrevista destinada a um programa da então Rádio Transamérica, em 1989, em comemoração ao aniversário de Raul Seixas. Na ocasião, o pai do cantor, Raul Varella Seixas, ainda era vivo, mas encontrava-se adoentado e permaneceu no quarto. O material foi editado com trechos da entrevista intercalados às músicas do artista.
Frustração pessoal e valor documental das gravações
Um dos pontos mais sensíveis do relato é a frustração do autor por não ter entregue a Raul Seixas a gravação do programa produzido em 1989. Segundo Pacheco Maia, Maria Eugênia pediu uma cópia para enviar ao filho, que teria ficado curioso com o conteúdo. A entrega, porém, não ocorreu antes da morte do cantor, em 21/08/1989.
O episódio confere ao texto uma camada de memória pessoal e de perda. Não se trata apenas da celebração de um aniversário, mas também da consciência de uma oportunidade perdida em torno de um artista cuja morte precoce ampliou a dimensão mítica de sua obra.
Família, Segunda Guerra e a intervenção de Lauro de Freitas
O texto também recupera uma história pouco difundida sobre os pais de Raul Seixas. Segundo o relato atribuído a Maria Eugênia, o casamento dela com Raul Varella Seixas teria sido ameaçado pela convocação do futuro marido durante a Segunda Guerra Mundial, em razão de seus conhecimentos na área de telecomunicações.
À época, Raul Varella trabalhava na área ferroviária e teria sido considerado útil às tropas brasileiras. A ida para a Itália, segundo a narrativa familiar, foi impedida pela intervenção de Lauro Farani Pedreira de Freitas, então diretor da Leste Brasileira e figura que posteriormente daria nome ao município de Lauro de Freitas, na Região Metropolitana de Salvador.
Conforme a história narrada por Pacheco Maia, Lauro de Freitas teria argumentado que não poderia prescindir dos serviços do jovem profissional. A decisão permitiu que o casamento acontecesse e, por consequência, que Raul Seixas nascesse em Salvador em 1945. O episódio é apresentado como peça de memória familiar, não como documento oficial, e por isso exige leitura adequada: trata-se de relato relevante, mas dependente de eventual confirmação documental para efeitos históricos mais amplos.
Histórias familiares revelam costumes de época e tensões contemporâneas
Pacheco Maia também relata episódios de infância envolvendo um jovem chamado Zé, levado para Salvador por solicitação dos pais, pessoas humildes do interior que desejavam oferecer ao filho melhores condições de estudo. No contexto da época, segundo o texto, estudar na zona rural era uma tarefa difícil, e famílias recorriam a arranjos domésticos para viabilizar oportunidades educacionais.
A narrativa inclui uma travessura de Raulzito e Plininho contra Zé, episódio que o próprio autor classifica como pouco compatível com os padrões contemporâneos de sensibilidade social.
Raul Seixas, Estados Unidos e permanência familiar
O texto de Pacheco Maia também menciona a ligação de Raul Seixas com os Estados Unidos, país que exerceu influência cultural sobre parte de sua formação musical e onde vivem duas de suas filhas, segundo o relato. O autor observa que Vivian permanece no Brasil, enquanto Simone e Scarlet, filhas de casamentos com mulheres americanas, residem nos EUA.
A referência ao neto homônimo, também chamado Raul, amplia o tom afetivo da homenagem. Pacheco Maia especula, em registro literário, se o descendente poderá promover nos Estados Unidos algum impacto semelhante ao produzido pelo avô no Brasil com o rock’n’roll.
Mais do que dado familiar, a passagem reforça a dimensão transnacional da trajetória de Raul Seixas. Sua obra dialogou com o rock norte-americano, mas ganhou forma própria ao incorporar referências brasileiras, nordestinas, filosóficas e populares. Essa fusão estética foi central para sua permanência no imaginário nacional.
Legado cultural de Raul Seixas atravessa gerações
A força de Raul Seixas não se explica apenas por sua discografia. O artista tornou-se símbolo de contestação, liberdade individual, humor, crítica social e experimentação estética. Suas canções permanecem presentes em rádios, shows, plataformas digitais, eventos culturais e homenagens públicas, mantendo viva a expressão popular “Toca Raul”.
Pacheco Maia escreve movido por uma influência pessoal que define como positiva nos campos cultural, filosófico, intelectual e musical. Essa formulação ajuda a compreender por que Raul ultrapassou a condição de cantor de sucesso e passou a ocupar o lugar de referência existencial para diferentes gerações de ouvintes.
A memória de Raul Seixas, portanto, permanece associada a um tipo raro de artista popular: aquele que dialoga com o grande público sem abrir mão de inquietações filosóficas, provocações políticas, ironia e linguagem simbólica. Em tempos de consumo musical fragmentado, seu legado resiste porque combina canções reconhecíveis, personalidade pública forte e repertório interpretável sob diferentes chaves.
Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia




