Plano de ACM Neto detalha Salvador e alimenta crítica de que Feira de Santana e interior ficam em segundo plano
Uma análise criteriosa do plano de governo apresentado por ACM Neto para o período de 2027 a 2030 mostra, nesta sexta-feira (31/07/2026), uma diferença substantiva entre o tratamento dado a Salvador e aquele destinado a Feira de Santana e às demais regiões da Bahia. Embora o documento de 214 páginas proponha planejamento baseado nos 27 Territórios de Identidade, a capital recebe compromissos territorialmente identificados, enquanto Feira aparece sobretudo em diagnósticos, políticas gerais e referências a rodovias federais. ACM Neto foi homologado candidato ao Governo da Bahia em convenção partidária realizada em 22/07, etapa anterior ao pedido formal de registro perante a Justiça Eleitoral.
O plano, denominado “Mudança com Segurança”, estrutura a ação governamental em três eixos: Vida Digna, Prosperidade Humana e Territorial e Futuro Baiano. As áreas prioritárias abrangem segurança pública, saúde, educação, desenvolvimento econômico, infraestrutura, habitação, promoção social, cultura, meio ambiente, inovação e gestão fiscal.
A proposta declara que o planejamento estadual deverá partir das características econômicas, sociais, culturais, ambientais e demográficas de cada região. Entretanto, os próprios planos estratégicos dos territórios seriam elaborados posteriormente, mediante estudos de vocação e ciclos de participação regional. O documento reconhece, ainda na apresentação, que não está finalizado e precisará ser “aprimorado e detalhado”.
Experiência em Salvador orienta a construção do plano estadual
A apresentação começa com uma referência direta aos dois mandatos de ACM Neto na Prefeitura de Salvador, exercidos entre 2013 e 2020. O candidato afirma ter recebido uma administração municipal endividada, com infraestrutura deteriorada e serviços públicos comprometidos, e atribui ao equilíbrio fiscal a possibilidade de ampliar investimentos durante os oito anos seguintes.
“Governei Salvador. Sei o que é assumir uma gestão esfacelada.”
Ao propor a transposição da experiência municipal para o Governo do Estado, ACM Neto coloca Salvador como referência administrativa e política de seu programa. A capital não aparece apenas como parte do diagnóstico estadual, mas como modelo de gestão a ser reproduzido em programas habitacionais, prevenção de desastres, urbanização, segurança comunitária, cultura e responsabilidade fiscal.
A presença de Salvador no texto supera amplamente a de Feira de Santana. Em levantamento realizado sobre o corpo principal do documento, desconsideradas as referências bibliográficas finais, o nome da capital aparece aproximadamente 82 vezes, enquanto Feira de Santana é mencionada 12 vezes. A contagem, isoladamente, não define prioridades orçamentárias, pois inclui diagnósticos e referências históricas, mas a avaliação qualitativa confirma que Salvador recebe propostas municipais mais numerosas e detalhadas.
Outro dado relevante é a ausência da expressão “Portal do Sertão” na versão textual analisada, apesar de o plano afirmar que os Territórios de Identidade constituem sua unidade básica de planejamento. Feira é citada nominalmente, mas a região por ela polarizada não recebe um capítulo próprio, uma carteira territorial de investimentos ou um diagnóstico integrado que relacione indústria, comércio, agricultura, mobilidade, saúde, saneamento, segurança e desenvolvimento urbano.
Salvador recebe agenda específica de mobilidade urbana
A mobilidade representa uma das áreas em que a diferença de detalhamento se torna mais evidente. Para as chamadas capitais regionais, o plano prevê apoio às prefeituras para atualização dos planos municipais e avaliação da viabilidade de sistemas como VLT e BRT, sem identificar previamente quais cidades seriam atendidas, quais trechos teriam prioridade ou quanto seria investido.
Para Salvador, ao contrário, o documento enumera ações concretas. Entre elas estão a conclusão do VLT, o aumento da demanda transportada pelo metrô, a melhoria dos acessos às estações, a integração entre diferentes meios de transporte e a construção de edifícios-garagem em pontos selecionados.
O programa também prevê diálogo imediato com a Prefeitura de Salvador para modernizar a frota de ônibus, inclusive mediante a incorporação de veículos elétricos, e integrar o transporte municipal ao metrô e ao VLT. A promessa é expressa: “Salvador terá um dos melhores sistemas de transporte público entre as capitais brasileiras”.
Na Região Metropolitana, o transporte ferroviário de passageiros seria ampliado em direção a municípios e áreas industriais, incluindo o Centro Industrial de Aratu, o Polo de Camaçari e a Região de Mataripe. Camaçari, Dias d’Ávila, Lauro de Freitas, Simões Filho e Candeias também são nominalmente incorporados à estratégia.
Não há compromisso equivalente para um sistema regional de transporte centrado em Feira de Santana. O plano menciona genericamente a organização do transporte intermunicipal em torno de cidades centrais, mas não detalha a integração entre Feira e municípios como São Gonçalo dos Campos, Conceição do Jacuípe, Santo Estêvão, Amélia Rodrigues, Coração de Maria, Anguera ou Conceição da Feira.
Capital ganha projetos de turismo, cultura e economia criativa
O tratamento conferido a Salvador também é mais definido no turismo. A proposta pretende consolidar a capital e sua região metropolitana como um centro internacional de cultura, eventos, patrimônio histórico, economia criativa e negócios.
Entre as iniciativas previstas estão o fortalecimento do Centro de Convenções, a captação de congressos, a ampliação da conectividade aérea internacional e a criação da plataforma Bahia Business Events. O plano ainda projeta Salvador como capital afroempreendedora global, estratégia destinada a integrar turismo, gastronomia, música, moda, audiovisual e serviços.
A Baía de Todos-os-Santos ocupa posição central nesse eixo. O programa Via Náutica deverá articular marinas, terminais, transporte aquaviário, passeios turísticos e roteiros culturais. O documento reconhece a possibilidade de compartilhamento de estruturas portuárias para evitar duplicação de obras.
Na cultura, Salvador volta a servir como referência. A proposta associa equipamentos culturais, festas populares, audiovisual, produção artística e turismo a uma política permanente de desenvolvimento econômico. Também prevê a retomada da Bienal da Bahia e a expansão de programas destinados à indústria criativa.
Para Feira de Santana, não há programa equivalente voltado à consolidação de sua identidade cultural, da Micareta, do Centro de Cultura Amélio Amorim, do mercado de arte popular, dos festivais regionais ou das atividades associadas à música, ao artesanato e à economia criativa. A cidade é enquadrada principalmente como polo comercial e de serviços.
Segurança pública apresenta diagnóstico local, mas resposta estadual
Feira de Santana aparece de forma destacada no diagnóstico da violência. O plano reproduz dados que colocam o município entre as cidades atingidas por disputas relacionadas ao tráfico de drogas, com taxa de 65,2 mortes violentas intencionais por 100 mil habitantes no levantamento citado pelo documento.
O texto também aborda a situação do Conjunto Penal de Feira de Santana. Segundo levantamento da OAB-BA incorporado ao plano, a unidade chegaria à proporção de 216,7 internos por agente de plantão, indicador apresentado como demonstração da insuficiência do efetivo penitenciário.
As medidas anunciadas, porém, são estaduais. O programa prevê a Governadoria da Segurança, comandada diretamente pelo governador; a integração das forças policiais; a expansão do reconhecimento facial; o monitoramento por câmeras e drones; o bloqueio de sinais de telefonia nos presídios; a construção de unidades de segurança máxima; e concursos contínuos para a Polícia Penal.
O documento não estabelece para Feira uma meta própria de redução de homicídios, quantidade de policiais adicionais, novo complexo de delegacias, unidade regional de inteligência ou ampliação definida do conjunto penal. Também não informa qual estrutura seria instalada na cidade para coordenar a política de segurança no Território Portal do Sertão.
Para Salvador, além das medidas estaduais, são identificados bairros dominados por facções, propostas de ocupação policial permanente e utilização dos nove Centros Sociais Urbanos existentes na capital como equipamentos integrados de policiamento comunitário, assistência social, esporte, cultura e qualificação profissional.
Feira é reconhecida como polo econômico, mas sem carteira de investimentos
No capítulo sobre comércio, serviços e micro e pequenas empresas, Feira de Santana é incluída ao lado de Vitória da Conquista, Juazeiro, Barreiras e Ilhéus entre as cidades médias com condições de se consolidar como centro regional.
A proposta prevê cooperação com as prefeituras para oferecer infraestrutura urbana planejada, conectividade e ambiente de negócios competitivo. O objetivo declarado é criar condições para a interiorização de redes varejistas e prestadores de serviços.
O plano também apresenta o Cresce Bahia, fundo de garantia destinado a facilitar o acesso de micro e pequenas empresas ao crédito, além de medidas de capacitação, formalização, digitalização e conexão entre compradores e fornecedores.
Apesar de reconhecer a importância econômica de Feira, o documento não individualiza suas principais cadeias produtivas. Não há compromisso nominal com a modernização do Centro Industrial do Subaé, expansão de distritos industriais, implantação de centro logístico, fortalecimento do aeroporto, integração entre indústria e Universidade Estadual de Feira de Santana ou criação de um polo tecnológico local.
A formulação para Feira permanece condicionada à posterior elaboração dos Planos Estratégicos Regionais. O documento afirma que esses planos deverão identificar vocações, gargalos, infraestrutura, mão de obra e investimentos, mas ainda não apresenta o resultado desse levantamento para a cidade e seu entorno.
Rodovias concentram as referências de infraestrutura para Feira
A maior parte das menções a Feira no capítulo de infraestrutura está relacionada às rodovias federais BR-324, BR-116 e BR-101. O plano descreve a ligação entre Salvador e Feira como um dos principais corredores econômicos da Bahia e critica o período de degradação das estradas sob responsabilidade da antiga concessionária ViaBahia.
O documento registra que a BR-116 Sul, entre Feira e a divisa com Minas Gerais, permaneceu durante anos sob um contrato considerado insuficiente. Também destaca os problemas da BR-324 e a demora da duplicação da BR-101 entre a divisa com Sergipe e Feira de Santana.
Para a nova concessão denominada Rota 2 de Julho, o programa promete cobrar prazos e qualidade de execução. O trecho descrito no plano parte do Contorno de Feira de Santana em direção à divisa com Minas Gerais.
“Tão logo o contrato seja assinado, terá prazo e qualidade de execução cobradas pelo Novo Governo.”
A formulação demonstra uma limitação administrativa: as principais rodovias associadas a Feira são federais. O Governo do Estado poderá articular, fiscalizar politicamente e pressionar a União e a concessionária, mas não terá controle unilateral sobre contratos, cronogramas e investimentos.
No conjunto de exemplos de obras estaduais, são citados corredores entre Ilhéus e Vitória da Conquista, Alagoinhas e Salvador, Umburanas e Sento Sé, Ibicoara e Abaíra, além de ligações no Oeste e no Extremo Sul. Não aparece, entretanto, uma nova ligação estadual estruturante para Feira ou o Portal do Sertão.
A ausência alcança temas historicamente vinculados ao desenvolvimento urbano e logístico da cidade. O documento não apresenta intervenção determinada no Anel de Contorno, integração entre os acessos rodoviários e os distritos industriais, plataforma multimodal de cargas ou sistema regional de transporte de passageiros.
Saúde regionalizada não define equipamento para Feira
Na saúde, ACM Neto propõe reorganizar a regulação estadual, criar uma fila única baseada em critérios clínicos e expandir serviços de média e alta complexidade para o interior. A estratégia busca reduzir o deslocamento de pacientes até Salvador e assegurar atendimento regional para trauma, infarto, acidente vascular cerebral, oncologia, maternidade de alto risco e terapia intensiva.
O programa prevê novos hospitais regionais onde estudos apontarem insuficiência de serviços. Hospitais municipais considerados estratégicos também poderiam ser ampliados, reformados ou equipados para assumir funções microrregionais. Uma análise específica do plano mostra que a proposta não se limita à compra de serviços privados, pois também admite expansão da rede pública.
Apesar da posição de Feira como centro de atendimento para numerosos municípios, o plano não lhe destina nominalmente novo hospital estadual, centro de oncologia, unidade especializada, ampliação de leitos de terapia intensiva ou complexo regional de regulação.
A cidade poderá ser beneficiada pela política geral de regionalização, mas a dimensão do investimento dependerá dos estudos que seriam realizados posteriormente. Não há definição sobre capacidade, localização, orçamento, cronograma ou população de referência.
Saneamento apresenta indicador, mas não fixa meta local
O plano informa que Salvador trataria 76,5% do esgoto gerado, enquanto Feira de Santana alcançaria 28,6%. Os números são utilizados para demonstrar as desigualdades regionais e a distância da Bahia em relação às metas nacionais de universalização.
A proposta estadual inclui investimentos da Embasa e da Cerb, mobilização de financiamento público, concessões e parcerias público-privadas. Também são defendidas metas anuais para redução das perdas de água e ampliação do esgotamento sanitário.
Embora o diagnóstico individualize Feira, o compromisso não segue o mesmo nível de precisão. O programa não informa qual percentual de tratamento de esgoto a cidade deverá atingir até 2030, quais bairros e distritos serão priorizados nem o volume de recursos previsto.
Na habitação, Feira aparece entre os seis municípios baianos selecionados pelo Novo PAC para ações de regularização fundiária, ao lado de Brumado, Itabuna, Juazeiro, Salvador e Vitória da Conquista. O programa de ACM Neto pretende ampliar a titulação mediante escritórios de campo, georreferenciamento e digitalização documental, mas não estabelece meta municipal de escrituras.
Salvador recebe propostas específicas para encostas e Centro Histórico
Na prevenção de desastres, o programa anuncia diagnósticos regionalizados, centrais meteorológicas, sistemas de alerta, obras de macrodrenagem, contenção de encostas e atendimento habitacional para famílias removidas de áreas vulneráveis.
A experiência da Prefeitura de Salvador é novamente apresentada como modelo a ser aplicado em escala estadual. O programa cita o uso de geomantas e sistemas de alerta adotados na capital durante a administração de ACM Neto.
Para Salvador, há ainda um compromisso específico destinado ao Centro Histórico. O documento registra 2.969 casarões cadastrados pela Defesa Civil, dos quais 451 estariam classificados em risco alto ou muito alto, e propõe um programa de restauração preventiva em parceria com Iphan, Caixa Econômica Federal e Ministério da Cultura.
Não existe proposta urbana de grau semelhante para o centro comercial de Feira, seus imóveis históricos, áreas sujeitas a alagamentos, ocupações precárias ou problemas de drenagem. As medidas destinadas ao município permanecem inseridas nos programas estaduais gerais.
“DNA da Bahia” promete territorialização ainda a ser construída
O principal contraponto à concentração de propostas em Salvador encontra-se no programa DNA da Bahia. A iniciativa pretende criar um sistema de inteligência que reúna vocação produtiva, condições ambientais, logística, mão de obra e carteira de investimentos para cada Território de Identidade.
O plano anuncia Câmaras Territoriais de Vocação Regional, Zonas de Industrialização do Interior, Distritos Agroindustriais do Semiárido, Distritos Industriais Minerais, polos de inovação e rotas turísticas regionais. Cada um dos 27 territórios deverá elaborar seu próprio planejamento estratégico com participação de municípios e comunidades.
A metodologia reconhece que a Bahia apresenta realidades econômicas e sociais distintas. O texto sustenta que um estado territorialmente extenso não pode ser governado por uma diretriz única definida na capital.
Entretanto, o conteúdo territorial mais importante é transferido para uma fase posterior. Ainda não estão apresentados os mapas de investimentos, as prioridades de cada território, os valores disponíveis, as fontes de financiamento, as metas anuais ou os critérios para decidir quais regiões receberão inicialmente as estruturas anunciadas.
A consequência é uma diferença de maturidade programática. Salvador entra no plano com problemas, equipamentos, sistemas de transporte, instituições parceiras e projetos identificados. Feira e parte considerável do interior entram como territórios cujas necessidades ainda precisarão ser estudadas, pactuadas e convertidas em programas.
Candidatura a governador
Linha do tempo
- 2013: ACM Neto assume a Prefeitura de Salvador e inicia o primeiro de seus dois mandatos.
- 31/12/2020: encerra oito anos à frente da administração municipal e transfere o cargo ao sucessor Bruno Reis.
- 30/10/2022: é derrotado por Jerônimo Rodrigues no segundo turno da eleição para o Governo da Bahia.
- 30/03/2026: participa, em Feira de Santana, da apresentação antecipada da chapa oposicionista, ao lado do prefeito José Ronaldo e de aliados.
- 22/07/2026: convenção realizada em Salvador homologa ACM Neto para governador, Zé Cocá para vice e Angelo Coronel e João Roma para o Senado.
- 31/07/2026: a análise do plano 2027–2030 identifica maior detalhamento das propostas destinadas a Salvador do que das iniciativas dirigidas a Feira e às demais regiões.
- 15/08/2026: termina o prazo para os partidos apresentarem os pedidos de registro de candidatura à Justiça Eleitoral.
- 04/10/2026: primeiro turno das Eleições Gerais de 2026.
ACM Neto “quer ser governador da capital”, o documento fornece base objetiva para essa interpretação política: Salvador recebe propostas nominalmente definidas, enquanto Feira de Santana e grande parte do interior dependem de programas gerais, estudos posteriores e articulações com a União. A capital aparece como modelo, destinatária e referência de gestão; Feira surge como polo a ser fortalecido, sem carteira própria de investimentos, metas locais ou cronograma.
O componente distópico do plano encontra-se principalmente no diagnóstico de uma Bahia submetida ao medo, às facções, às filas de saúde, à precariedade educacional, à pobreza e ao isolamento logístico. A resposta proposta combina comando pessoal do governador, tecnologia, metas públicas e identificação de vocações produtivas.
A crítica de simplificação e de falta de densidade intelectual torna-se defensável quando traduzida em lacunas verificáveis: uma sociedade orgânica e um desenvolvimento integrado não resultam apenas da soma de vocações territoriais. Exigem redes urbanas articuladas, capacidade institucional dos municípios, financiamento, universidades, cadeias industriais, mobilidade regional, saúde hierarquizada, políticas redistributivas, governança interfederativa e mecanismos que conectem a capital, as cidades médias, os pequenos municípios e as zonas rurais.
O plano apresenta diagnóstico amplo e algumas propostas estruturadas, mas ainda precisa demonstrar como suas diretrizes chegarão concretamente a Feira e aos demais territórios.
Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia




