ACM Neto fala em “humilhar” Jerônimo e revive roteiro simbólico que marcou sua derrota na Bahia em 2022

Nesta quinta-feira (04/06/2026), artigo do jornalista e analista político Jerbson Moraes, publicado no portal Manejo Notícias sob o título original ACM Neto e a armadilha do verbo, analisou os efeitos políticos da declaração do ex-prefeito de Salvador ACM Neto sobre a intenção de “humilhar” o governador Jerônimo Rodrigues em debate público. O texto sustenta que a escolha do verbo deslocou a discussão sobre segurança pública, saúde e indicadores sociais da Bahia para o campo do comportamento político, reabrindo uma disputa simbólica semelhante à que marcou a eleição estadual de 2022.

No artigo, Jerbson Moraes afirma que a promessa de ACM Neto de “humilhar” o governador começou a produzir desgaste poucas horas depois de pronunciada. A declaração teria sido feita em evento da Fundação Índigo, em contexto no qual o ex-prefeito comparava indicadores de segurança pública da Bahia com dados de Goiás.

A crítica central do texto não está apenas na comparação entre estados, mas na escolha da palavra usada pelo ex-prefeito. Segundo o autor, ACM Neto poderia ter anunciado a intenção de superar o adversário no debate de resultados, apresentar alternativas de gestão ou demonstrar experiências administrativas consideradas mais eficientes. Ao optar por falar em “humilhar”, no entanto, teria transferido a controvérsia do campo técnico para o plano simbólico.

Jerbson Moraes sintetiza esse ponto ao observar que, quando um candidato promete humilhar o governador usando indicadores do próprio estado, surge uma questão política sensível: a crítica recairia apenas sobre o gestor ou também sobre os mais de 14 milhões de baianos retratados pelos números apresentados.

Comparação com outros estados é apontada como seletiva

O artigo sustenta que a estratégia comparativa de ACM Neto teria apresentado uma “geometria variável”. De acordo com Moraes, o ex-prefeito cita Goiás ao tratar de segurança pública e recorre a São Paulo quando aborda saúde, mas não aplica o mesmo critério a áreas nas quais a Bahia aparece em posição de destaque.

Entre os exemplos mencionados está a transição energética. O texto cita dados atribuídos à Secretaria de Desenvolvimento Econômico da Bahia, segundo os quais o estado respondeu por cerca de 37% da geração eólica nacional em 2025, com 381 usinas em operação, 11,8 gigawatts de potência outorgada, investimentos acumulados da ordem de R$ 77 bilhões e aproximadamente 118 mil empregos ao longo da cadeia produtiva.

A análise reconhece, contudo, que esses avanços não eliminam problemas estruturais. O próprio artigo admite que a violência, a pressão sobre a saúde pública e a persistência da pobreza seguem como temas centrais da agenda baiana. A crítica formulada por Moraes é outra: se a comparação entre estados serve para expor fragilidades, também deveria registrar conquistas. Caso contrário, deixa de operar como diagnóstico e passa a funcionar como argumento de campanha.

Eleição de 2022 volta ao centro da interpretação política

Um dos eixos do artigo é a memória da eleição estadual de 2022, quando ACM Neto liderou a maior parte das pesquisas de intenção de voto, mas terminou derrotado por Jerônimo Rodrigues. No primeiro turno, o então candidato do PT ficou à frente, com 49,45% dos votos válidos, contra 40,80% do ex-prefeito de Salvador. No segundo turno, Jerônimo confirmou a vitória e foi eleito governador da Bahia.

Para Jerbson Moraes, a lembrança de 2022 é relevante porque ACM Neto teria vencido parte da disputa administrativa durante a pré-campanha, mas Jerônimo conseguiu transformar a eleição em confronto simbólico. O governador construiu, à época, a imagem de professor do interior diante de uma estrutura política mais conhecida e tradicional.

O artigo argumenta que a palavra “humilhar” pode reativar esse roteiro. Ao invés de manter a oposição concentrada em indicadores de gestão, a expressão permitiu ao campo governista deslocar a discussão para valores como humildade, respeito institucional e relação com o eleitorado baiano.

Reações governistas exploram dimensão simbólica da fala

Segundo o texto, a reação de aliados do governador foi rápida. O senador Jaques Wagner interpretou a fala como sinal de autoritarismo e coronelismo. O ministro Rui Costa associou a declaração a uma postura de arrogância. O deputado estadual Angelo Almeida recorreu a referência religiosa ao afirmar que os humilhados serão exaltados.

A formulação mais forte citada no artigo foi atribuída ao secretário Adolpho Loyola, para quem “quem fala em humilhar não quer governar, quer se vingar”. A frase, segundo a leitura de Moraes, tende a ser usada pelo grupo governista como síntese política contra ACM Neto durante a disputa de 2026.

A partir dessa reação, o artigo sustenta que a oposição perdeu, ao menos momentaneamente, a centralidade do debate técnico. A discussão deixou de girar apenas em torno de segurança pública, saúde ou desempenho administrativo e passou a envolver a forma como um candidato se dirige ao adversário, ao eleitorado e ao próprio estado que pretende governar.

A palavra como marca de campanha

Na parte final do artigo, Jerbson Moraes afirma que, na política, uma frase criada para definir o adversário pode acabar definindo quem a pronunciou. Para o autor, ACM Neto pretendia enquadrar Jerônimo Rodrigues como símbolo das deficiências da Bahia, mas a repercussão inicial da fala mudou o eixo do debate.

O artigo avalia que a oposição desejava discutir números, enquanto o governo ganhou a oportunidade de discutir comportamento político. Essa mudança de terreno é relevante porque campanhas majoritárias não se sustentam apenas em estatísticas, mas também em imagens públicas, percepções de temperamento, atributos pessoais e identificação com o eleitorado.

Moraes conclui que uma única palavra raramente decide uma eleição, mas pode se transformar em símbolo de uma candidatura. No caso analisado, o verbo “humilhar” passou a carregar um peso maior do que a intenção original do discurso, abrindo espaço para questionamentos sobre se ACM Neto pretende apresentar soluções ou produzir constrangimento político ao adversário.

Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia

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