Apagão da internet no Irã coincide com repressão a protestos e relatos de violência contra manifestantes
A interrupção do acesso à internet no Irã, registrada na segunda-feira (19/01/2026), ocorre em meio à repressão estatal a protestos populares que se intensificaram nas últimas semanas em diferentes regiões do país. Moradores e pessoas que deixaram o território iraniano relatam que o bloqueio das comunicações dificulta a circulação de informações e coincide com operações de contenção conduzidas por forças de segurança.
Com a restrição digital, postos de fronteira, como o de Kapiköy, na divisa com a Turquia, passaram a ser pontos estratégicos para a obtenção de relatos diretos sobre a situação interna. Pessoas que cruzam diariamente a fronteira descrevem presença ostensiva de policiais armados e de forças ligadas ao regime nas principais cidades.
Autoridades iranianas informaram que linhas telefônicas e serviços de mensagens foram parcialmente restabelecidos, enquanto o acesso pleno à internet segue instável, após breves períodos de liberação e novos bloqueios.
Protestos, controle estatal e restrição de informações
As manifestações tiveram início no final de dezembro, inicialmente associadas a demandas econômicas, como inflação elevada e desvalorização da moeda nacional. Com o avanço dos atos, os protestos passaram a incorporar críticas políticas ao regime, o que foi seguido por ações repressivas mais amplas.
Relatos de moradores indicam que o corte da internet ocorreu após a intensificação das mobilizações, limitando o envio de imagens, vídeos e mensagens para fora do país. A medida é apontada como um fator que reduz a visibilidade internacional dos acontecimentos.
Segundo declarações oficiais, o governo prevê a retomada gradual da conectividade, sem apresentar cronograma detalhado para a normalização total do serviço.
Fronteiras como rota de informação e saída do país
Além de comerciantes e trabalhadores informais afetados pela crise econômica, há registros de cidadãos que deixam o Irã para acessar a internet em países vizinhos ou seguir viagem para destinos europeus, diante do cancelamento de voos diretos.
Esses deslocamentos também refletem o impacto econômico dos protestos, com alta acumulada de preços e redução do poder de compra, fatores que contribuíram para o início das manifestações.
A circulação de pessoas pela fronteira evidencia a deterioração das condições internas e a busca por meios de comunicação com familiares no exterior.
Relatos de violência, prisões e mortes
Moradores de Teerã e de outras cidades relatam operações conduzidas por policiais, milícias paramilitares e forças de elite, com dispersão violenta de manifestantes e detenções. Há registros de prisões em larga escala, reconhecidas parcialmente pelas autoridades.
Estimativas sobre o número de mortos variam. Organizações independentes apontam milhares de vítimas, enquanto o governo apresenta números distintos e atribui parte das mortes a confrontos com grupos classificados como violentos.
Entrevistados afirmam que familiares e conhecidos estariam entre as vítimas, indicando que a repressão alcançou diferentes regiões do país, incluindo grandes centros urbanos e cidades do interior.
Disputa de narrativas e cenário de incerteza
O governo iraniano sustenta que os protestos teriam sido influenciados por atores externos, argumento rejeitado por participantes das manifestações, que afirmam tratar-se de mobilização interna contra a condução política e econômica do país.
A ausência de informações independentes, provocada pelo apagão digital, amplia a incerteza sobre a real dimensão dos acontecimentos e dificulta a verificação dos dados divulgados por diferentes lados.
O cenário permanece instável, com presença contínua das forças de segurança e expectativa sobre a normalização das comunicações e os próximos desdobramentos políticos.
*Com informações da RFI.
Redação do Jornal Grande Bahia




