Caso Banco Master: Edson Fachin marca reunião com PF para outubro de 2026 e cobra apuração “sem exceção” de menções a ministros do STF
Neste sábado (03/10/2026), o Caso Banco Master entrou em nova etapa institucional depois que o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, marcou para 13/10/2026 uma reunião com o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, destinada a tratar das referências a integrantes da Corte localizadas nas conversas e arquivos extraídos do celular do ex-controlador do banco Daniel Vorcaro. Em ofício encaminhado na sexta-feira (02), Fachin afirmou que fatos relevantes deverão receber os “encaminhamentos devidos” quando forem apresentados de maneira integral e sustentou que a apuração deve alcançar fatos e pessoas “sem exceção”, respeitando o devido processo legal, a autonomia dos órgãos investigadores e as competências constitucionais do Supremo.
O encontro foi solicitado pela PF na manhã de quinta-feira (01/10). Segundo Fachin, o pedido foi prontamente atendido, mas a data foi ajustada em razão de dificuldades de agenda. A previsão divulgada pela Agência Brasil é de que Andrei Rodrigues apresente formalmente em 13 de outubro uma relação dos ministros mencionados no material relacionado a Vorcaro.
A medida ocorre após semanas de disputa processual no STF sobre como tratar informações envolvendo seus próprios integrantes. Em 15/09/2026, o Plenário interrompeu, sem examinar o mérito, a Petição 16.662, depois de pedido de vista de Flávio Dino. O processo permanece formalmente sob vista, conforme os andamentos públicos do Supremo consultados até 03/10/2026.
Fachin estabelece tratamento integral para informações enviadas pela PF
O posicionamento de Fachin procura definir um critério institucional para o tratamento dos achados: informações relacionadas aos integrantes da Corte não deverão ser analisadas por recortes pessoais sem que o conjunto relevante seja apresentado à Presidência. No ofício de 02/10, o ministro afirmou haver interesse institucional na apuração rigorosa de qualquer fato relevante, com observância das regras constitucionais e processuais.
Esse ponto responde diretamente a uma das controvérsias abertas em setembro. Parte dos integrantes do Supremo passou a questionar por que determinados conteúdos extraídos do aparelho de Vorcaro haviam gerado um procedimento específico relacionado a Alexandre de Moraes, enquanto referências a outros magistrados apareciam em documentos, mensagens ou diálogos de pessoas ligadas ao antigo controlador do Master.
A nova orientação não significa, por si só, abertura automática de investigações contra todos os citados. Uma referência em mensagem, documento ou conversa possui valor jurídico diferente de uma prova de participação em ilícito. Caberá aos órgãos competentes avaliar a origem, o contexto, a autenticidade, a materialidade e a relevância de cada elemento antes de qualquer eventual medida investigativa ou processual.
Celular de Daniel Vorcaro tornou-se peça central da crise
O aparelho de Daniel Vorcaro, apreendido no contexto da Operação Compliance Zero, passou a ocupar posição central nas apurações depois que a PF realizou extração forense de seus dados. A Petição 16.662 nasceu de informações produzidas a partir desse material e foi protocolada no Supremo em 28/08/2026. Os registros oficiais do STF mostram que a controvérsia evoluiu para uma discussão sobre a forma de produção e utilização dessas informações e sobre a autoridade competente para conduzir os procedimentos.
A Polícia Federal informou oficialmente, em setembro, que o material original permaneceu integralmente em suas dependências, submetido a cadeia de custódia formalmente documentada, com lacres e mecanismos de verificação de integridade. A corporação esclareceu ainda que a cópia anteriormente encaminhada ao gabinete de André Mendonça não correspondia ao material original.
Em 14/09, a PF entregou cópias idênticas da extração aos gabinetes de Alexandre de Moraes, Cristiano Zanin e Gilmar Mendes, em atendimento a solicitações formuladas pelos ministros. A corporação reiterou que o conteúdo original permanecia sob sua guarda.
Alexandre de Moraes contesta relatório e nega diálogos atribuídos a ele
Entre os elementos que detonaram a controvérsia institucional estão registros que a PF associou a um contato atribuído ao ministro Alexandre de Moraes. A documentação examinada no processo inclui mensagens e referências relacionadas ao ex-controlador do Master e ao escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do magistrado. A reportagem da Folha sobre o encontro entre Fachin e a PF registra também referências a contrato de aproximadamente R$ 131 milhões e a metadados associados ao material apreendido.
Moraes rejeitou as conclusões. Em manifestação de 44 páginas apresentada antes da sessão de 15 de setembro, afirmou que os diálogos atribuídos a ele seriam inexistentes e que haveria anotações produzidas por Vorcaro sem demonstração de respostas do ministro. Também questionou juridicamente o modo pelo qual o relatório foi produzido e negou irregularidades em sua atuação.
Essas divergências constituem precisamente parte do que ainda deverá ser resolvido pelo STF: o Plenário não decidiu se o material relacionado a Moraes sustenta a abertura ou continuidade de uma investigação formal, nem julgou responsabilidade penal do magistrado.
André Mendonça confirma encontro com Vorcaro e apresenta sua versão
O ministro André Mendonça, relator originário de parte relevante dos procedimentos do Caso Master, também aparece no material relacionado a Vorcaro. Em nota divulgada em 02/09/2026, Mendonça confirmou que recebeu o então banqueiro uma única vez, em março de 2025, afirmando que o encontro ocorreu por iniciativa do empresário.
Segundo o gabinete do ministro, a conversa ficou restrita a um processo sobre precatórios que estava em julgamento no Supremo. Mendonça sustentou que se limitou a ouvir Vorcaro e posteriormente decidiu de maneira contrária ao interesse apresentado pelo empresário.
A atuação de Mendonça na condução das investigações também passou a ser questionada dentro do próprio Tribunal. A controvérsia foi incorporada à Petição 16.704, instaurada pela Presidência do STF em setembro para organizar e esclarecer questões decorrentes dos procedimentos relacionados ao Master.
Gilmar Mendes cobra identificação de todos os magistrados citados
O decano Gilmar Mendes transformou a identificação completa dos magistrados mencionados em uma questão processual. Em manifestação de 28/09/2026, defendeu que o julgamento relacionado a Moraes permaneça suspenso até que o Supremo saiba quais juízes e ministros aparecem no material e em quais circunstâncias.
Gilmar argumentou que essa identificação também é necessária para definir quem poderá participar dos julgamentos. O ponto ganhou relevância concreta em 15 de setembro: Kassio Nunes Marques declarou-se impedido, enquanto Dias Toffoli afirmou suspeição na Petição 16.662, conforme a certidão oficial do julgamento.
A questão de ordem apresentada pelo decano propôs reunir as Petições 16.662 e 16.704, redistribuir os processos e certificar os magistrados mencionados no Caso Master sobre os quais eventualmente recaíssem indícios de recebimento indevido de valores. Gilmar também propôs que, depois dessa identificação, fossem ouvidos a PGR e os próprios magistrados citados.
Nunes Marques, Toffoli e Fux aparecem em diferentes contextos
As referências a integrantes do STF não são homogêneas. Elas surgem em mensagens, contratos, conversas de terceiros, relações profissionais ou registros de eventos, razão pela qual precisam ser examinadas individualmente antes de qualquer conclusão.
No caso de Kassio Nunes Marques, documentos e conversas vinculados a pessoas próximas do banqueiro passaram a ser examinados pela imprensa e pelos investigadores. O ministro nega ter autorizado terceiros a agir em seu nome ou mantido as relações indevidas que lhe foram atribuídas.
Em relação a Dias Toffoli, investigações e reportagens passaram a examinar transações ligadas ao fundo Arleen e ao empreendimento Tayayá, anteriormente relacionado à família do ministro. Toffoli negou ter mantido relação de amizade ou intimidade com Vorcaro. A existência de referências e operações financeiras sob investigação não constitui, isoladamente, demonstração de responsabilidade criminal.
Quanto a Luiz Fux, mensagens examinadas pela Polícia Federal indicaram tratativas de terceiros relacionadas ao custeio de viagem e homenagem ao ministro em Nova York, em maio de 2024. Fux afirmou que nunca trocou mensagens com Vorcaro, que o convite partiu diretamente da Forbes Brasil e que não manteve contato com o banqueiro durante o evento.
Julgamento de 15 de setembro terminou sem análise do mérito
A dimensão processual da crise tornou-se evidente na sessão extraordinária realizada pelo STF em 15/09/2026. O Tribunal começou a discutir uma questão de ordem levantada por Gilmar Mendes antes de chegar ao conteúdo central da Petição 16.662.
Edson Fachin, André Mendonça, Luiz Fux e Cármen Lúcia se posicionaram pela manutenção separada dos processos. Gilmar Mendes, Cristiano Zanin e Alexandre de Moraes apoiaram a reunião das Petições 16.662 e 16.704. Flávio Dino manifestou-se pela reunião, mas pediu vista antes da conclusão da deliberação; por isso, seu voto não integrou o placar formal, que ficou em 4 a 3 pela manutenção separada dos feitos.
O efeito jurídico fundamental é que não houve julgamento do mérito das informações relativas a Moraes. A certidão registra o pedido de vista de Dino e os posicionamentos processuais dos demais ministros, sem decisão sobre eventual abertura ou prosseguimento de investigação contra o magistrado.
Constituição coloca STF no centro das decisões sobre seus próprios ministros
A discussão também envolve a competência constitucional do Supremo. O artigo 102, inciso I, alínea “b”, da Constituição Federal atribui ao STF competência originária para processar e julgar seus próprios ministros nas infrações penais comuns. Essa regra ajuda a explicar por que descobertas policiais envolvendo integrantes da Corte exigem tratamento processual específico e supervisão da autoridade judicial competente.
Ao mesmo tempo, a Constituição atribui ao Ministério Público funções relacionadas à promoção da ação penal pública e à requisição de diligências investigatórias, enquanto a Polícia Federal executa as atividades de polícia judiciária da União. O desafio institucional consiste, portanto, em preservar a autonomia investigativa sem desrespeitar regras de competência, foro, contraditório e devido processo.
Foi justamente esse equilíbrio que Fachin destacou no ofício de 2 de outubro: o presidente do Supremo afirmou buscar a preservação simultânea da autonomia dos órgãos de investigação e persecução penal e das competências constitucionais da Corte.
Caso Master começou como investigação financeira e alcançou instituições do Estado
A origem da crise está nas investigações financeiras abertas antes de os nomes de ministros aparecerem no centro do debate. Segundo informações divulgadas pela PF à época da primeira fase ostensiva, a investigação começou em 2024, após requisição do Ministério Público Federal para apurar possível fabricação de carteiras de crédito sem correspondência econômica adequada e sua posterior negociação com outra instituição financeira.
Vorcaro foi preso pela Polícia Federal em 17/11/2025, no Aeroporto Internacional de Guarulhos, quando se preparava para viajar ao exterior. Sua defesa afirmou que a viagem estava relacionada às negociações para venda da instituição e rejeitou a versão de fuga. A primeira fase ostensiva da Operação Compliance Zero foi deflagrada no dia seguinte.
Em 18/11/2025, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master S.A., Banco Master de Investimento, Letsbank e Master Corretora, além de regime especial no Banco Master Múltiplo. O BC declarou que a decisão decorria de grave crise de liquidez, comprometimento econômico-financeiro significativo e violações às normas do Sistema Financeiro Nacional.
As investigações continuaram avançando. Em 09/07/2026, a PF anunciou a décima fase da Compliance Zero, destinada a apurar, entre outros elementos, possível atuação coordenada para intimidar jornalistas, monitorar pessoas ligadas a autoridades, obter informações sigilosas e interferir em investigações criminais. Tais fatos são apurados como hipóteses investigativas e não equivalem a condenações.
Reunião de 13 de outubro poderá organizar próximos procedimentos
O encontro entre Fachin e Andrei Rodrigues deverá ocorrer em um ambiente processual mais complexo do que o existente quando os primeiros dados do celular vieram a público. De acordo com a Agência Brasil, a PF pretende apresentar a lista dos integrantes do Supremo mencionados nas conversas de Vorcaro.
A entrega não implica necessariamente a instauração simultânea de inquéritos contra todas as pessoas listadas. A natureza de cada referência terá de ser examinada: uma mensagem direta, uma anotação unilateral, a fala de um intermediário, um contrato, um encontro institucional e uma operação financeira constituem categorias probatórias distintas.
Entre os possíveis desdobramentos processuais estão a produção de relatórios específicos pela PF, a submissão de elementos à PGR, pedidos de diligências complementares, manifestações dos citados e decisões do STF sobre competência, conexão entre processos e eventual impedimento ou suspeição de magistrados. A concretização de qualquer dessas hipóteses dependerá do conteúdo efetivamente apresentado e das decisões posteriores das autoridades competentes.
Linha do tempo dos principais acontecimentos
- 2024 — início da investigação: apurações são abertas após requisição do Ministério Público Federal sobre possíveis carteiras de crédito irregulares posteriormente negociadas entre instituições financeiras.
- Março de 2025 — encontro com Mendonça: André Mendonça afirma ter recebido Daniel Vorcaro uma única vez para tratar de processo sobre precatórios e nega atuação irregular.
- 17/11/2025 — prisão de Vorcaro: o então controlador do Master é preso pela PF no Aeroporto de Guarulhos antes de viagem internacional; a defesa rejeita a hipótese de fuga.
- 18/11/2025 — liquidação do Master: Banco Central decreta liquidação extrajudicial de empresas do conglomerado, citando grave crise de liquidez e comprometimento econômico-financeiro.
- 09/07/2026 — décima fase da Compliance Zero: PF amplia apurações para suspeitas de intimidação, monitoramento ilícito, obtenção de dados sigilosos e interferência em investigações.
- 28/08/2026 — Petição 16.662: é protocolado no STF o procedimento derivado de informações produzidas a partir do material extraído do celular de Vorcaro.
- 01/09/2026 — novas providências: elementos da apuração são encaminhados para manifestação da PGR, enquanto a publicidade dos documentos passa a alimentar a controvérsia institucional.
- 12/09/2026 — Fachin assume a relatoria: a Presidência do STF passa a conduzir a Petição 16.662 e determina a centralização de processos relacionados ao Caso Master.
- 13 e 14/09/2026 — PF esclarece cadeia de custódia: a corporação informa que o material original do celular permanece sob sua guarda e distribui cópias idênticas a gabinetes de ministros que as solicitaram.
- 15/09/2026 — julgamento suspenso: Plenário discute a reunião das Pets 16.662 e 16.704, registra placar formal de 4 a 3 pela tramitação separada e interrompe o julgamento após pedido de vista de Flávio Dino; mérito não é apreciado.
- 28/09/2026 — Gilmar Mendes amplia questão de ordem: decano pede identificação dos magistrados mencionados e sustenta que isso é necessário para definir inclusive quem pode votar nos processos.
- 01/10/2026 — PF solicita audiência: direção da Polícia Federal pede reunião com Edson Fachin para discutir o tratamento dos achados envolvendo integrantes do Supremo.
- 02/10/2026 — Fachin responde: presidente do STF afirma que fatos relevantes devem ser apurados integralmente e “sem exceção”, dentro das regras constitucionais e processuais.
- 13/10/2026 — reunião prevista: Fachin deverá receber Andrei Rodrigues e a relação de ministros mencionados no material ligado a Daniel Vorcaro.
O fato novo de 2 de outubro possui significado institucional porque desloca o debate de referências isoladas para a definição de um critério geral de tratamento das informações. A questão central não é presumir que todo magistrado mencionado esteja sob suspeita, mas estabelecer como PF, PGR e Supremo devem lidar com elementos potencialmente relacionados a pessoas submetidas à competência originária da própria Corte. O desafio é impedir tanto uma apuração seletiva quanto a transformação de simples citações em acusações sem base probatória.
Há também uma dificuldade estrutural: integrantes do STF podem simultaneamente aparecer em documentos, declarar impedimento ou suspeição e participar de decisões sobre os procedimentos derivados da mesma investigação. O julgamento de 15 de setembro demonstrou concretamente essa complexidade, com Nunes Marques impedido, Toffoli declarando suspeição e o Plenário sem alcançar o mérito da Petição 16.662. A proposta de Gilmar Mendes de identificar previamente todos os magistrados citados procura responder a esse problema processual, embora sua solução ainda dependa do colegiado.
Outro ponto essencial é distinguir material investigativo de prova judicialmente validada. Dados extraídos de telefone, anotações unilaterais, mensagens de terceiros, contratos e registros financeiros podem justificar diligências, mas cada categoria exige verificação de autenticidade, contexto, autoria, nexo e relevância. As negativas de Moraes, Mendonça, Nunes Marques, Toffoli e Fux integram o contraditório público e processual e precisam ser confrontadas com documentos e decisões, não substituídas por inferências.
A reunião marcada para 13/10/2026 deverá, portanto, ser acompanhada principalmente pelo que produzir documentalmente: quais ministros serão formalmente relacionados pela PF, em que contexto cada nome aparece, quais elementos serão considerados juridicamente relevantes, se haverá manifestação da PGR e quais procedimentos o STF determinará. O interesse público decorre não apenas das investigações financeiras do antigo Banco Master, mas da necessidade de assegurar que suspeitas envolvendo autoridades do sistema de Justiça sejam examinadas por critérios uniformes, com independência investigativa, transparência compatível com a preservação de diligências e respeito ao devido processo legal.
Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia




