Caso Master pressiona PT e União Brasil e entra no centro da disputa pelo Governo da Bahia nas Eleições 2026
O avanço das apurações relacionadas ao Caso Master alcançou nesta Quinta-feira (19/03/2026) as principais forças políticas da Bahia e passou a influenciar de forma direta o cenário da disputa estadual. As revelações mencionam tanto o ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União Brasil), apontado como pré-candidato ao governo baiano, quanto nomes ligados ao PT, entre eles o líder do governo no Senado, Jaques Wagner, além de conexões políticas que remetem ao ministro da Casa Civil, Rui Costa, e ao governador Jerônimo Rodrigues. O episódio já é tratado nos bastidores como potencial fator de desgaste eleitoral e tende a ser explorado pelos dois principais grupos que devem polarizar a sucessão estadual.
ACM Neto e os repasses apontados no relatório do Coaf
No caso de ACM Neto, um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apontou que ele recebeu R$ 3,6 milhões do Banco Master, por meio da gestora de recursos Reag. Segundo o conteúdo apresentado, os repasses ocorreram entre março de 2023 e maio de 2024, período posterior às eleições de 2022.
Procurado, o ex-prefeito de Salvador afirmou que os valores correspondem à prestação de serviços de consultoria. A informação insere o nome de ACM Neto em um contexto de elevada sensibilidade política, sobretudo porque ele é tratado como um dos principais nomes da oposição para a disputa pelo Palácio de Ondina.
A menção ao ex-prefeito ocorre num momento em que o União Brasil busca consolidar um discurso competitivo para enfrentar o grupo governista na Bahia. Por isso, a associação do nome de ACM Neto ao caso Master tende a produzir efeitos não apenas jurídicos ou reputacionais, mas também eleitorais, especialmente num ambiente em que adversários tentam atribuir responsabilidades políticas ao campo oposto.
Jaques Wagner, BK Financeira e a reação do PT
No campo petista, o caso também atinge figuras centrais. Segundo o conteúdo apresentado, a empresa BK Financeira, pertencente à nora de Jaques Wagner, recebeu ao menos R$ 11 milhões do Master, conforme informação atribuída ao portal Metrópoles. O contrato teria sido firmado em 2021.
Em nota, Wagner afirmou que não tem conhecimento de qualquer investigação e declarou que jamais participou de intermediação ou negociação em favor da empresa citada. A manifestação procura afastar o senador de qualquer envolvimento direto na operação e conter o impacto político do episódio sobre uma das figuras mais influentes do PT baiano.
Ainda nesse eixo, o texto menciona que Bonnie Toaldo Bonilha, casada com um enteado de Wagner, figura como uma das sócias da BK Financeira. A inserção desse dado amplia a pressão sobre o entorno político do senador, ainda que, segundo a posição pública dele, não haja participação direta em negociações relacionadas à empresa.
Rui Costa, Augusto Lima e a origem política da controvérsia
Outro ponto relevante do caso envolve as relações do banqueiro Augusto Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro, dono do Master, com integrantes do PT, entre eles Rui Costa. A controvérsia se conecta à privatização da Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), antiga controladora da rede Cesta do Povo, arrematada em 2018 por Augusto Lima, quando Rui era governador da Bahia.
Segundo o texto, Lima deixou o Master em 2023 e levou consigo um dos ativos incluídos no leilão promovido pelo governo baiano: o Credcesta, cartão de crédito consignado destinado a servidores e aposentados. A operação passou a ser usada por adversários como peça de narrativa política para sustentar que uma das origens do escândalo estaria em decisões tomadas durante administrações petistas no estado.
A crítica foi verbalizada pelo deputado José Rocha (União-BA), que associou o início da controvérsia ao período em que o PT governava a Bahia. A declaração reforça a estratégia oposicionista de vincular o caso a decisões administrativas anteriores, com o objetivo de transferir desgaste político ao partido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O papel do Credcesta na venda da Ebal
De acordo com o conteúdo fornecido, Rui Costa incluiu o Credcesta no terceiro leilão da Ebal após duas tentativas frustradas de privatização. A avaliação apresentada por ele, em fevereiro, foi a de que a operação do cartão de crédito consignado foi o elemento que viabilizou o negócio.
Esse detalhe é central porque transforma uma decisão administrativa de governo em elemento de disputa política posterior. O que em determinado momento foi apresentado como solução para tornar o ativo atrativo ao mercado agora é reinterpretado por adversários como uma conexão relevante dentro da cadeia de fatos que desaguaram no caso Master.
A politização desse movimento é previsível. Em anos eleitorais, operações societárias, contratos pretéritos e relações empresariais passam a ser reavaliados sob a lógica do embate político. Na Bahia, onde o PT mantém longa hegemonia estadual e a oposição busca reconstruir força competitiva, esse tipo de material tende a ganhar grande tração pública.
Disputa eleitoral e uso político das investigações
As revelações já influenciam a preparação da disputa pelo governo da Bahia. O caso atinge justamente os dois campos que devem protagonizar a eleição: de um lado, o grupo liderado pelo PT, que pretende buscar a reeleição com Jerônimo Rodrigues; de outro, o União Brasil, que trabalha com o nome de ACM Neto como alternativa ao comando estadual.
Nos bastidores, integrantes do União Brasil tentam atribuir ao PT a origem política do problema, enquanto petistas aproveitam a menção a ACM Neto para tentar dissociar a esquerda do escândalo e transferir o foco para a oposição. O episódio, portanto, deixou de ser apenas uma investigação com repercussão financeira e passou a operar como instrumento de disputa narrativa.
Essa dinâmica foi reforçada pela declaração de Jerônimo Rodrigues, que afirmou esperar que a Justiça acompanhe, monitore e esclareça os fatos, classificando o tema como sério. A fala cumpre dupla função: evita antecipar conclusões e, ao mesmo tempo, mantém o caso em circulação no debate público, com potencial de desgaste para adversários.
Reação cautelosa no União Brasil
Apesar da tentação de explorar politicamente o caso contra o PT, há cautela no União Brasil sobre a forma e o momento de utilização do tema. Segundo o conteúdo fornecido, ACM Neto ainda não se posicionou publicamente sobre o episódio, e a leitura interna é a de que o partido precisa alinhar previamente a estratégia de comunicação da campanha.
O texto também destaca que Neto contratou o marqueteiro João Santana, conhecido por campanhas vitoriosas do PT e atualmente crítico ao governo Lula. A informação sugere que a oposição pretende calibrar seu discurso com elevado grau de cálculo político, evitando movimentos precipitados num cenário em que o próprio campo oposicionista também aparece citado nas revelações.
Essa cautela é compreensível. Quando um escândalo alcança simultaneamente adversários e aliados potenciais, o uso político excessivo pode se voltar contra quem o promove. Em disputas majoritárias, sobretudo na Bahia, onde os blocos são estruturados e o eleitorado já está bastante exposto à polarização, o risco de efeito reverso sempre existe.
Leitura nacional e tensões com o governo federal
O caso também é observado sob a lente da política nacional. De acordo com o texto, a cúpula do União Brasil atribui ao governo federal responsabilidade indireta por seguidos reveses enfrentados por lideranças nacionais da legenda em investigações. A avaliação interna mencionada é a de que a Polícia Federal não atuaria sem alinhamento com o governo do presidente Lula.
Essa leitura amplia a controvérsia para além da Bahia e insere o caso em um ambiente de crescente desconfiança entre partidos, instituições de investigação e atores do Executivo federal. Ainda segundo o conteúdo, embora tenha indicado três ministros, o União Brasil tende a permanecer neutro na eleição presidencial, liberando os diretórios estaduais.
Esse dado revela um pano de fundo importante: o caso Master não se limita a uma disputa regional. Ele se conecta a rearranjos partidários nacionais, à disputa por controle de narrativa institucional e à tentativa de preservar competitividade eleitoral em um ambiente político fragmentado e cada vez mais judicializado.
Escândalo financeiro, narrativa eleitoral e disputa de responsabilidades
O caso Master ganhou densidade política porque atinge, ao mesmo tempo, nomes centrais do PT e do União Brasil na Bahia, embaralhando a tentativa de cada grupo de monopolizar o discurso moralizador. Quando um episódio dessa natureza alcança os dois polos mais competitivos da disputa, o debate deixa de ser apenas sobre fatos e passa a girar também em torno de quem conseguirá impor a interpretação dominante perante a opinião pública.
Os principais desdobramentos apontam para uma campanha marcada por acusações cruzadas, uso seletivo de informações e tentativa permanente de transferir o ônus político ao adversário. Há ainda uma tensão evidente entre responsabilidade jurídica individual e exploração política coletiva: nem toda relação societária ou contratual implica, por si só, responsabilidade pessoal de agentes políticos, mas em ano eleitoral esse tipo de distinção costuma perder espaço no debate público.
Também chama atenção o fato de o caso reunir elementos financeiros, familiares, empresariais e institucionais, o que amplia sua complexidade. As omissões ainda existentes sobre a extensão das investigações, o grau exato de vínculo entre personagens políticos e empresas mencionadas, e os limites entre legalidade administrativa e desgaste político serão decisivos para medir o verdadeiro impacto do episódio na disputa baiana.
*Com informações do jornal O Globo, Folha de S.Paulo, Estadão, Poder360, Metrópoles, CNN, Revista Veja e Agências Brasil, Reuters, RFI, Sputnik e BBC Brasil.
Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia




