De ‘amigo autêntico’ a foragido: homem usou laços afetivos para aplicar golpes milionários em MG

Um homem suspeito de aplicar um golpe financeiro de mais de R$ 2,1 milhões em Minas Gerais usava amizades de longa data para atrair investidores. Identificado pelas iniciais M.T.F.A., ele oferecia rendimentos elevados, prometia segurança nas aplicações e chegou a receber dinheiro de pelo menos 44 pessoas. O suspeito desapareceu em setembro, após deixar uma “carta de despedida”.

Segundo uma representação apresentada pelo advogado Felipe Velloso, o esquema funcionava desde pelo menos 2020 e envolvia o uso de contas bancárias de terceiros, contratos falsificados e comprovantes de pagamento fraudulentos. Entre as vítimas estão amigos que conheciam M. havia mais de uma década e que entregaram economias, verbas rescisórias e recursos destinados à realização de projetos pessoais.

“Sonhos viraram dívidas. E ele segue impune”, desabafou Bruno Nascimento, um dos 44 investidores que relatam prejuízos. Segundo a representação, o valor total reclamado chega a pelo menos R$ 2.129.985,10.

Quem é o suspeito

M.T.F.A. nasceu em 6 de fevereiro de 1988, em Belo Horizonte (MG). Filho de policial aposentado, M. era visto pelos amigos como alguém de confiança.

“Ele era muito querido por todos, extremamente sociável e agradável. Sempre tinha interesse em saber como eu estava e era muito aberto, dando conselhos e aceitando os meus”, relatou a dentista Tuane Aguiar, amiga de M. e uma das pessoas que afirmam ter sido prejudicadas. Ela investiu cerca de R$ 200 mil com ele e diz que o prejuízo total é incalculável. Segundo Tuane, o suspeito prometeu pagar o aluguel dela, mas enviou um comprovante que ela afirma ser falso. Agora, Tuane precisa entregar o imóvel e pagar a multa pela rescisão do contrato de aluguel.

Além de ser “um bom amigo”, M. era considerado “autêntico”. Gostava de bebidas, relógios, perfumes, futebol e rock, e tratava bem a esposa, segundo pessoas próximas. Após as denúncias, no entanto, a “autenticidade” de M. passou a ser questionada. “Tenho a impressão de que cada amigo era visto como potencial cliente”, afirmou o web designer Bruno Nascimento.

Bruno conheceu M. entre 2012 e 2013, na Universidade Federal de Viçosa, em Minas Gerais. A amizade começou por conta de ideias e gostos em comum. Bruno chegou a ir ao casamento de M. e dormir na casa do amigo. No total, investiu R$ 75 mil com ele ao longo de quatro anos. Seu sonho era usar o valor para comprar uma casa própria. Para isso, repassou parte de sua rescisão para M. investir, mas afirma não ter recuperado o dinheiro.

Como funcionava o esquema

De acordo com a representação do advogado Felipe Velloso, M. teria agido de forma semelhante com diferentes investidores. Desde 2020, ele se apresentava a amigos e conhecidos como gestor financeiro, prometendo retornos elevados e preservação integral do dinheiro aplicado.

Segundo a representação, os valores eram depositados em diferentes contas atribuídas a M. Ele teria utilizado ao menos quatro contas, duas no Itaú, uma na XP e outra no C6 Bank. Também mencionava ligações com Wise, Nubank e Mercado Pago. Para algumas vítimas, M. ainda teria afirmado ser representante do Commerzbank, banco alemão que encerrou as atividades no Brasil em 2023.

A representação também aponta o uso de contas de familiares e terceiros para receber depósitos, simular pagamentos e ocultar recursos. O pai do suspeito, A.J.A., teria sido apresentado a alguns investidores como fonte de recursos para cobrir os resgates financeiros. Já a esposa, J.E., teria tido seu nome e cartões utilizados por M. e recebido bens que, segundo a representação, foram comprados com recursos dos investidores, entre eles um carro e um ateliê. O irmão de M., V.T., foi apontado por uma das vítimas como “garantidor da operação” e advogado do suspeito. Ele negou ser advogado de M.

Ainda segundo a representação, G. teria oferecido ajuda para uma eventual fuga e para a blindagem patrimonial de M., prometendo colocá-lo em contato com S., que facilitaria o acesso a um “paraíso fiscal” para esconder dinheiro. H. e B., por sua vez, são apontados no documento como intermediários no recebimento e repasse de valores.

O representante comercial Renan Carvalho de Oliveira foi uma das pessoas que enviaram dinheiro a B., a quem afirma não conhecer. Por confiar na amizade de 20 anos com M., não suspeitou de um esquema. No total, Renan investiu cerca de R$ 40 mil com ele. Em 2024, perdeu a mãe e, depois de muita insistência, conseguiu resgatar R$ 12 mil para o velório. Renan afirma que M. ainda lhe deve cerca de R$ 8 mil.

Para operar o suposto esquema, M. também fornecia dados de diferentes CNPJs, segundo a representação. O documento aponta ainda o uso de contratos e demonstrativos falsificados, enviados aos investidores. O motorista por aplicativo João Lucas Diniz Rodrigues é um dos amigos que recebiam relatórios dos investimentos que M. dizia realizar. João Lucas conhece o suspeito há cerca de 11 anos e começou a investir com ele em 2021. Desde então, depositou R$ 45 mil em diferentes bancos. O dinheiro era sua reserva de emergência e também seria usado para dar entrada em um restaurante para a esposa. Segundo ele, M. ainda lhe deve R$ 27 mil.

A representação afirma que M. também teria enviado comprovantes de pagamento falsificados e adiado devoluções solicitadas pelos investidores. De acordo com a notícia-crime apresentada pelo advogado, as justificativas dadas por M. incluíam “bloqueios bancários, estornos, limites PIX, malha fiscal, audiências, problemas de saúde, roubo de telefone e acidentes familiares”.

Apesar das explicações repetidas, as vítimas dizem que não desconfiavam de golpe. “Confiávamos tanto, éramos tão amigos, que não conversávamos sobre os problemas e desculpas que ele dava”, relatou Mariana Ferreira Chaib de Toledo, analista de Direito do Ministério Público Federal e uma das pessoas que relatam prejuízos. Mariana era amiga de M. desde 2015, foi ao casamento dele e conhecia os pais do suspeito. Além de investir com o amigo, fez um empréstimo de R$ 13 mil para ele. No total, afirma ter tido um prejuízo de R$ 17.250.

O sumiço

Segundo a representação de Felipe Velloso, em setembro de 2026, M. deixou de manter contato com os amigos, que ficaram sem acesso aos valores investidos.

Na quarta-feira (9), às 4h48, M. teria escrito uma carta de despedida. “Bebi, comi e vivi empilhando os sonhos das pessoas, sonhos esses que se vão junto comigo. Espero que minha morte seja um consolo”, diz a mensagem.

Na quinta-feira (10), os bombeiros atenderam a uma ocorrência de risco à vida na região mencionada na carta. De acordo com o Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais (CBMMG), o homem atendido estava consciente, mas “vivenciava um momento de luto”. Apesar de ter recusado ajuda, a equipe o acompanhou para fora da área de perigo.

Na segunda-feira (14), a professora Daniela Kiedis (nome e profissão alterados para preservar sua identidade) tentou contato com M. para solicitar o resgate de um investimento. “Fiz o registro da conversa de que queria reaver, como forma de manifestar que tentei”, contou. Na época, além do sumiço de M., o caso já repercutia entre os amigos. Daniela, que tinha colegas em comum com o suspeito, investiu R$ 1.000 para ajudá-lo a atingir uma “meta”. O dinheiro seria usado para dar entrada em um carro, mas o valor não foi recuperado.

No domingo (20), Thiago Resende tentou contato com o pai de M., “por curiosidade pelo que ele falaria”. O pai atendeu à ligação e mencionou um possível paradeiro do filho. “Acho que ele foi para a Bahia”, disse. Thiago é executivo de suprimentos e começou a investir com M. em agosto de 2026, após indicação de amigos em comum. No total, repassou R$ 11 mil ao suspeito na expectativa de obter rentabilidade com a diversificação dos investimentos, mas não conseguiu recuperar o valor.

Cerca de um mês após o desaparecimento de M., persistiam dúvidas sobre seu paradeiro e sobre o destino do dinheiro. “Eu não acredito que ele tenha desaparecido porque ‘perdeu’ o dinheiro de todo mundo”, afirmou Laís de Castro Arantes, uma das pessoas que relatam prejuízo. “Eu acho que ele sumiu de forma premeditada após conseguir juntar uma quantia considerável que queria, junto com quem quer que esteja fazendo parte do golpe com ele, e sumiu pra se esconder com o dinheiro”, concluiu.

Laís é psicóloga e cantora e, diferentemente das demais pessoas citadas, não era amiga do suspeito. No total, investiu R$ 20 mil e afirma ter tido um prejuízo de R$ 12.500. “Era literalmente todo o dinheiro que eu tinha. Dinheiro de muito suor, muita batalha. Dinheiro que eu ia usar para abrir um negócio com a minha esposa”, explicou.

Além das dúvidas sobre M. e da perda financeira, os amigos relatam outro tipo de luto. “Estou vivendo de ansiolítico e antidepressivo. Não perdi só o dinheiro, perdi um amigo”, desabafou Tuane. “Eu até evito de falar sobre isso, porque agora eu acredito em qualquer coisa. Mas, a gente só vai saber o que aconteceu realmente quando encontrá-lo e ele se explicar, né?”, concluiu.

A Jovem Pan falou com os dois irmãos de M., e ambos disseram não ter informações sobre o paradeiro dele. V.T., citado por uma das vítimas como advogado do suspeito, negou a informação. A Jovem Pan também tentou contato com a esposa, J.E., mas não obteve resposta. Ela segue trabalhando no ateliê que, segundo a representação, teria sido comprado com recursos dos investidores. O espaço segue aberto para M., seus familiares e advogados se manifestarem.

Beatriz Lia

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