José Antônio Maia deixa o MDB, agradece passagem pela Seap e anuncia novos rumos políticos na Bahia
O advogado e ex-secretário estadual José Antônio Maia Gonçalves anunciou, nesta sexta-feira (10/07/2026), sua desfiliação do Movimento Democrático Brasileiro — MDB. Em vídeo divulgado nas redes sociais, ele afirmou ter protocolado eletronicamente o pedido perante o Tribunal Regional Eleitoral da Bahia — TRE-BA, agradeceu à legenda pela indicação para comandar a Secretaria de Administração Penitenciária e Ressocialização da Bahia — Seap e declarou que seguirá “outros rumos”, sem revelar a nova sigla, projeto político ou função que pretende assumir.
No pronunciamento, Maia classificou a decisão como o encerramento de um ciclo pessoal e político. Segundo ele, o pedido de desligamento já havia sido encaminhado à Justiça Eleitoral no momento em que gravou a mensagem.
“Hoje encerro mais um ciclo da minha vida”, declarou. Ao informar o protocolo do requerimento, o advogado apresentou a saída como uma decisão concluída, embora não tenha divulgado número de processo, comprovante de recebimento ou outros documentos relacionados ao procedimento.
O TRE-BA define a desfiliação partidária como o pedido de cancelamento da filiação no banco de dados da Justiça Eleitoral. O serviço é destinado aos eleitores filiados e depende da apresentação de requerimento pelo interessado. A manifestação de Maia confirma sua iniciativa política, mas a efetivação administrativa do desligamento deverá observar os procedimentos da Justiça Eleitoral e da própria agremiação.
Ex-secretário agradece confiança do partido
Apesar de deixar o MDB, José Antônio Maia adotou um tom predominantemente respeitoso ao tratar da relação mantida com a legenda. Ele agradeceu ao partido pela confiança depositada em seu nome e pela participação em sua trajetória no Governo da Bahia.
Maia destacou especialmente a indicação para comandar a Secretaria de Administração Penitenciária e Ressocialização, responsável pela gestão do sistema prisional baiano e pelas políticas estaduais relacionadas à custódia, segurança penitenciária e reintegração social de pessoas privadas de liberdade.
“Quero agradecer ao partido a confiança de ter me indicado secretário da Administração Penitenciária e Ressocialização do Estado da Bahia”, afirmou. Ele também descreveu como “harmônica, respeitosa e carinhosa” a convivência que manteve com dirigentes e integrantes do MDB durante o período de filiação.
Passagem pela administração penitenciária
Advogado com atuação profissional em diferentes instâncias do Poder Judiciário, José Antônio Maia assumiu o comando da Seap em abril de 2022, durante o governo de Rui Costa, e foi mantido no primeiro escalão estadual após a posse do governador Jerônimo Rodrigues, em janeiro de 2023.
Sua saída da secretaria ocorreu em maio de 2024, depois de mais de dois anos à frente da pasta. Na ocasião, Maia agradeceu pela oportunidade de atuar no serviço público e deixou o posto, posteriormente ocupado por José Carlos Souto de Castro Filho.
Documentos institucionais também registram a participação do advogado no conselho fiscal da Companhia de Engenharia Hídrica e de Saneamento da Bahia — CERB, experiência administrativa mencionada em sua apresentação pública nas redes sociais.
Discurso combina agradecimento e críticas indiretas
Embora tenha ressaltado que sua saída não decorreu de traição praticada por ele, Maia utilizou expressões que indicam a existência de insatisfações acumuladas durante sua passagem pela legenda.
Ao definir a atividade política, afirmou que ela reúne momentos de “congruência e incongruência”, “harmonia e desarmonia”. Segundo o advogado, a política deve ser compreendida como um espaço de construção de entendimentos e busca de interesses comuns, e não como “um ringue onde as pessoas se digladiam”.
Na sequência, mencionou a existência de “deslealdade”, “ciumeira” e “traição” no ambiente partidário. Maia, entretanto, não identificou dirigentes, parlamentares, integrantes do MDB ou episódios específicos aos quais estaria se referindo.
“O traidor é sempre defenestrado. Não é o meu caso. Que fique bem claro isso aqui”, declarou. A ressalva sugere que o ex-secretário procurou afastar eventuais interpretações de que teria rompido compromissos internos ou abandonado o partido de maneira desleal.
“O silêncio também grita”, afirma advogado
O trecho mais crítico do pronunciamento foi dedicado ao comportamento de pessoas que, segundo Maia, permaneceram inertes quando procuradas. Mais uma vez, ele não revelou nomes, circunstâncias ou demandas que teriam deixado de receber resposta.
“Na política, nem tudo é fala. O silêncio também grita”, afirmou. Para o advogado, esse silêncio teria sido utilizado como “uma arma letal” por pessoas que optaram por não responder a solicitações apresentadas de maneira humilde.
A ausência de identificação dos destinatários impede estabelecer, neste momento, se a crítica foi dirigida à direção estadual do MDB, a integrantes do Governo da Bahia, a lideranças regionais ou a outro grupo político. Também não foram apresentados elementos que permitam relacionar diretamente o episódio à passagem de Maia pela Seap ou à sua saída da administração estadual em 2024.
Jornalisticamente, as declarações devem ser tratadas como manifestação pessoal do ex-filiado. Sem documentos, nomes ou versões das demais partes, não é possível confirmar a natureza das divergências mencionadas nem definir se decorreram de disputas por espaço político, falta de interlocução ou diferenças sobre projetos futuros.
Defesa do diálogo e do Estado Democrático de Direito
Durante a declaração, José Antônio Maia afirmou que sua trajetória partidária e administrativa foi orientada pelo respeito à democracia e pela abertura ao diálogo com diferentes segmentos da sociedade.
Segundo ele, tanto o gabinete que ocupou na Seap quanto seu escritório de advocacia permaneceram acessíveis a pessoas de diferentes raças, crenças, orientações políticas, identidades de gênero e filiações partidárias.
O advogado declarou que aprendeu com os pais a avaliar as pessoas pelo caráter, e não por atributos pessoais ou posições políticas. “A única acepção que se faz é a do caráter”, afirmou, acrescentando que a palavra de uma pessoa deve representar seus princípios e compromissos.
Maia também se apresenta publicamente como defensor do Estado Democrático de Direito e da busca pela Justiça. A defesa da convivência plural ocupou parte relevante de sua mensagem, na qual procurou conciliar o rompimento partidário com a preservação de uma imagem de moderação e respeito institucional.
Maia não revela destino partidário
Ao concluir o pronunciamento, o ex-secretário informou apenas que seguirá por novos caminhos. “Tomaremos outros rumos, naturalmente”, declarou, sem indicar se pretende ingressar imediatamente em outra legenda.
Também não houve anúncio de candidatura, convite para cargo público, participação em grupo político ou apoio formal a algum dos projetos eleitorais em construção na Bahia. Qualquer associação de Maia a uma nova sigla ou candidatura, portanto, dependerá de confirmação posterior.
Referências históricas, religiosas e filosóficas
No encerramento da mensagem, José Antônio Maia recorreu a referências políticas, religiosas e filosóficas para caracterizar o fim de sua passagem pelo partido.
Ele afirmou que não repetiria a frase atribuída a Getúlio Vargas — “saio da vida para entrar na história” —, mas citou a passagem bíblica associada ao apóstolo Paulo: “Combati o bom combate, encerrei a carreira, guardei a fé”.
Maia também mencionou Jean-Paul Sartre e o princípio da liberdade individual, encerrando o pronunciamento com uma adaptação da fórmula filosófica “penso, logo existo”. A combinação das referências reforçou a intenção de apresentar a desfiliação como uma decisão pessoal, consciente e vinculada à autonomia política.
Antes de concluir, agradeceu novamente aos companheiros que participaram de sua trajetória no MDB e declarou que continuará à disposição para o exercício profissional e para futuras atividades públicas.
Críticas sem destinatário mantêm questões em aberto
A saída de José Antônio Maia reúne dois elementos distintos. O primeiro é objetivo: o ex-secretário afirma ter protocolado seu pedido de desfiliação e encerra formalmente sua relação com o MDB. O segundo é político e ainda indefinido: as referências a silêncio, deslealdade, ciúme e traição revelam insatisfação, mas não permitem identificar responsabilidades ou reconstruir os fatos que motivaram o rompimento.
A opção por agradecer ao partido e, simultaneamente, registrar críticas indiretas indica uma tentativa de preservar relações institucionais sem esconder divergências. O discurso evita um confronto nominal, mas deixa margem para questionamentos sobre interlocução interna, reconhecimento político e perspectivas oferecidas ao ex-secretário após sua saída do Governo da Bahia. Essas hipóteses, porém, permanecem no campo interpretativo e dependem de novas declarações, documentos ou manifestações do MDB.
O episódio importa porque envolve um ex-integrante do primeiro escalão estadual com experiência jurídica e administrativa, que deixa uma legenda participante da política baiana sem revelar o destino seguinte. Os próximos pontos de acompanhamento são a confirmação do cancelamento da filiação pela Justiça Eleitoral, uma eventual manifestação do MDB, o esclarecimento das críticas formuladas no vídeo e o anúncio sobre a nova posição partidária ou profissional que José Antônio Maia pretende assumir.
Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia




