Mensagens de Daniel Vorcaro indicam proximidade com senador Davi Alcolumbre e reacendem disputa sobre CPI do Banco Master no Senado
Novas mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, divulgadas nesta quinta-feira (24/09/2026) por Veja e Folha de S.Paulo, indicam uma relação pessoal próxima entre o ex-banqueiro e o presidente do Senado e do Congresso Nacional, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP). Os diálogos surgem em momento de pressão institucional sobre o caso: no dia anterior, o ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), recusou liminar que buscava obrigar o Senado a avançar com uma CPI sobre o Master, enquanto Luiz Fux concedeu dez dias para que Alcolumbre preste informações sobre eventuais registros de entrada e saída de Vorcaro e outras pessoas no Senado. As mensagens documentam proximidade entre os dois, mas, isoladamente, não comprovam pagamento ilícito, corrupção, tráfico de influência ou que decisões tomadas por Alcolumbre tenham resultado de contrapartidas oferecidas pelo banqueiro.
Mensagens mostram tratamento íntimo e comunicação direta
O material da Veja fornecido para esta reportagem foi publicado às 19h29 de 24/09/2026 e posteriormente atualizado. A revista apresentou Alcolumbre como personagem das articulações registradas nas conversas de Vorcaro. O resumo que acompanha o documento atribui às mensagens uma relação de intimidade e troca de favores entre o então banqueiro e o presidente do Congresso, interpretação que precisa ser distinguida dos fatos documentais efetivamente demonstráveis.
Um dos diálogos destacados teria ocorrido em 1º de fevereiro de 2025, dia em que Alcolumbre foi eleito pela segunda vez presidente do Senado, com 73 dos 81 votos. Segundo a Veja, após receber uma mensagem de congratulação de Vorcaro, o senador respondeu tratando-o de forma afetuosa e afirmou: “Sou seu irmão. Pra vida toda”. Vorcaro teria respondido que estaria disponível “a qualquer tempo pra qualquer coisa”. A eleição de Alcolumbre nessa data e o resultado de 73 votos são confirmados pelos registros oficiais do Senado.
A relevância do episódio não decorre do tratamento informal em si, mas do fato de que as mensagens apontam comunicação direta e vínculo anterior entre um dos principais dirigentes do Congresso Nacional e o controlador de uma instituição financeira que posteriormente se tornou objeto de investigações policiais, procedimentos no STF e liquidação extrajudicial.
O segundo material fornecido, referente à cobertura da Folha, relaciona expressamente a reportagem aos temas Banco Master, Daniel Vorcaro, Davi Alcolumbre, Congresso Nacional, Polícia Federal, STF, Fábio Faria e Hugo Motta, entre outros personagens e instituições alcançados pelos desdobramentos do caso. O arquivo também registra o endereço da reportagem intitulada “Mensagens apontam relação de proximidade entre Alcolumbre e Vorcaro”.
Conversas citam Fábio Faria, encontros privados e articulações
Segundo a Veja, o acervo contém diálogos relacionados à organização de encontros privados dos quais participariam autoridades e empresários. Fábio Faria, ex-ministro das Comunicações, aparece como interlocutor frequente de Vorcaro e como intermediário na preparação de alguns desses eventos. A reportagem cita ainda conversas referentes ao Fórum Jurídico realizado em Londres, em abril de 2024, período em que diferentes autoridades brasileiras estiveram na capital britânica.
Os diálogos também fazem referências a Alcolumbre em discussões sobre a organização e a confidencialidade de confraternizações. Esses registros podem ajudar a reconstruir a dimensão social da rede de relacionamentos de Vorcaro, mas a participação em encontros privados ou a manutenção de relações pessoais com empresários não constitui, por si só, prova de irregularidade.
Outro trecho relatado pela revista envolve uma pergunta de Vorcaro sobre um personagem referido apenas como “nosso amigo”. Alcolumbre teria respondido: “Estou em Cima!!! Pressão!!!”. O fragmento pode indicar que o senador acompanhava algum assunto de interesse comum, mas o trecho divulgado não permite estabelecer, isoladamente, quem era o interlocutor mencionado, qual era o objeto da suposta pressão nem se houve qualquer ato funcional associado à conversa.
A própria natureza fragmentada desse tipo de material exige análise do conteúdo integral, metadados, sequência temporal, documentos correlatos e eventuais atos administrativos ou legislativos subsequentes antes que se estabeleça uma relação causal entre as conversas privadas e decisões públicas.
Polícia Federal confirma integridade da extração do celular de Vorcaro
Um elemento relevante para a avaliação documental é que a Polícia Federal confirmou oficialmente a existência da extração do celular de Daniel Vorcaro e a preservação de sua cadeia de custódia. Em 13/09/2026, a instituição informou ao STF que o material original permanecia integralmente sob sua guarda, com lacres e mecanismos de verificação de integridade digital. A PF esclareceu também que uma cópia havia sido encaminhada ao gabinete do ministro André Mendonça em março.
No dia seguinte, 14/09/2026, a corporação comunicou ter entregue cópias idênticas da extração aos gabinetes dos ministros Alexandre de Moraes, Cristiano Zanin e Gilmar Mendes, mantendo o original em suas dependências.
Essa confirmação oficial reforça a existência de uma base forense preservada. Ela não significa, contudo, que todo recorte publicado pela imprensa esteja automaticamente contextualizado ou que as interpretações atribuídas às mensagens estejam comprovadas criminalmente. A integridade do conjunto de dados e a conclusão jurídica extraída de determinados diálogos são questões distintas.
Para que uma conversa assuma valor probatório em relação a eventual crime, é necessário examinar, entre outros aspectos, autenticidade, interlocutores, contexto, sequência completa, correspondência com atos concretos, registros financeiros, depoimentos e demais elementos independentes de confirmação.
Novas mensagens coincidem com disputa pela CPI do Banco Master
A divulgação ocorre em meio à controvérsia sobre a instalação de uma comissão parlamentar destinada a investigar o Caso Banco Master. Um requerimento de CPI apresentado no Senado foi protocolado em 9 de março de 2026, segundo documentos do processo posteriormente levado ao STF.
Em 21/05/2026, parlamentares governistas e de oposição cobraram, em sessão conjunta do Congresso, a leitura de requerimentos relacionados à investigação. Alcolumbre afirmou que o momento da leitura das matérias do expediente estava sujeito à decisão da Presidência e sustentou que aquela sessão havia sido convocada especificamente para tratar de vetos.
Esse é um ponto importante para a análise das mensagens agora divulgadas. O fato documentado é que Alcolumbre não promoveu naquele momento a leitura necessária ao avanço da CPMI e justificou sua decisão com base no procedimento legislativo. A hipótese de que sua relação pessoal com Vorcaro tenha determinado essa conduta é uma interpretação que não pode ser tratada como fato comprovado sem elementos adicionais.
A associação temporal entre relacionamento, mensagens e decisões administrativas da Presidência do Congresso torna legítimo o escrutínio jornalístico e institucional, mas não substitui a demonstração documental do motivo de cada ato.
Zanin rejeita liminar, mas discussão sobre CPI permanece aberta
A disputa chegou ao Supremo. Em decisão assinada na terça-feira (22/09/2026) e divulgada no dia seguinte, Cristiano Zanin negou liminar requerida pelo senador Alessandro Vieira (MDB-SE) para obrigar o Senado a avançar com a comissão.
O ministro entendeu que, naquele estágio processual, não estava demonstrada uma omissão inconstitucional de Alcolumbre que autorizasse intervenção imediata do Judiciário. A negativa da liminar, entretanto, não encerrou definitivamente o processo: o caso poderá ser reavaliado depois do recebimento das informações solicitadas ao Senado.
A decisão possui significado jurídico específico. Ela não representa conclusão do STF sobre as relações entre Alcolumbre e Vorcaro, tampouco valida ou invalida o conteúdo das novas mensagens. O que Zanin examinou naquele momento foi a existência dos requisitos para uma decisão provisória destinada a obrigar a Presidência do Senado a dar andamento à CPI.
A eventual incorporação das mensagens ao debate judicial dependerá das iniciativas das partes, do conteúdo integral dos documentos e da avaliação dos órgãos competentes.
Fux exige informações sobre entradas de Vorcaro no Senado
Outra frente ganhou importância imediatamente antes da revelação das mensagens. Em 23/09/2026, o ministro Luiz Fux deu prazo de dez dias para que Davi Alcolumbre se manifeste sobre um pedido de acesso a eventuais registros de entrada e saída de Daniel Vorcaro nas dependências do Senado.
O processo teve origem em ação apresentada pelo vereador de Curitiba Guilherme Kilter (Novo). O pedido alcança também registros relacionados à advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, e outras pessoas. O Senado havia negado administrativamente o fornecimento dos dados sob alegação de que se tratava de informações pessoais.
Alexandre de Moraes havia sido inicialmente sorteado para relatar o caso, mas declarou-se impedido porque a demanda alcançava sua esposa. Após redistribuição determinada pela Presidência do STF, Fux assumiu a relatoria.
Os registros, caso existam e sejam fornecidos, poderão estabelecer se, quando e quantas vezes determinados personagens ingressaram formalmente no Senado. Eles não revelarão automaticamente o conteúdo das reuniões nem provarão eventual irregularidade. Da mesma forma, a inexistência de um registro formal não excluiria contatos realizados fora das dependências da Casa ou por meios eletrônicos.
Alegação de US$ 30 milhões permanece sem comprovação pública
As mensagens divulgadas nesta quinta-feira se somam a um episódio anterior de maior gravidade. Em junho, Veja informou que uma proposta de colaboração apresentada por Vorcaro atribuiria a Alcolumbre o recebimento de US$ 30 milhões no exterior em troca de atuação relacionada aos interesses do Banco Master. A proposta de colaboração não foi aceita.
Em manifestação oficial no plenário do Senado em 16/06/2026, Alcolumbre negou integralmente a acusação. Disse jamais ter recebido aqueles valores ou quaisquer outros no Brasil ou no exterior e afirmou que adotaria as medidas necessárias para esclarecer a origem das alegações.
É essencial separar as duas camadas de informação. As novas mensagens oferecem evidência adicional da proximidade pessoal entre Vorcaro e Alcolumbre, mas não comprovam o alegado pagamento de US$ 30 milhões. Até o momento, não foi apresentado publicamente documento bancário, comprovante de transferência ou outro elemento independente que confirme essa acusação específica.
Também merece distinção a afirmação da Veja de que Alcolumbre teria negado, em conversa com colegas, até conhecer Vorcaro. O pronunciamento oficial de 16 de junho disponível nos registros do Senado concentra-se na negativa do suposto pagamento e não reproduz uma declaração pública equivalente de desconhecimento pessoal. A reportagem da revista sustenta que essa negativa teria ocorrido em reunião com parlamentares.
Caso Master envolve investigação criminal, liquidação e atuação do STF
O contexto ultrapassa a relação entre o senador e o empresário. O Banco Central mantém o Banco Master S/A em liquidação extrajudicial, regime iniciado em novembro de 2025, segundo seus registros oficiais.
Em 4/03/2026, André Mendonça determinou a prisão preventiva de Daniel Vorcaro e outros investigados a pedido da Polícia Federal. O STF informou que a investigação apontava um possível esquema de fraudes bilionárias e mencionou risco concreto de interferência nas apurações. Em 20/03, a Segunda Turma manteve por unanimidade as prisões naquele estágio do processo.
As investigações deram origem a sucessivas frentes envolvendo relações de Vorcaro com agentes políticos, autoridades, empresários, servidores e intermediários. A décima fase da Operação Compliance Zero, realizada em julho, passou a investigar também possíveis ações destinadas a interferir em investigações e monitorar pessoas ligadas a autoridades, segundo a PF.
Em setembro, o material extraído do celular tornou-se também objeto de disputa dentro do Supremo. Na Petição 16.662, o tribunal passou a analisar relatório produzido pela PF com informações retiradas do aparelho. Em 15/09, pedido de vista do ministro Flávio Dino interrompeu a apreciação de uma questão de ordem relacionada à tramitação conjunta da Pet 16.662 com a Pet 16.704; o mérito das investigações não foi julgado naquela sessão.
Relação documentada amplia exigência de transparência institucional
A principal consequência imediata das novas mensagens é alterar o nível de informação pública disponível sobre a relação entre Davi Alcolumbre e Daniel Vorcaro. Antes, o debate estava fortemente associado à acusação de pagamento apresentada em uma tentativa frustrada de colaboração. Agora, os diálogos oferecem elementos independentes daquela acusação para demonstrar a existência de contato direto e linguagem de proximidade.
Isso modifica a pergunta jornalística. A questão deixa de ser apenas se houve ou não o suposto pagamento e passa a abranger qual era a extensão da relação, quais assuntos eram tratados, quando ocorreram os contatos e se algum deles esteve relacionado a atos praticados no exercício da Presidência do Senado ou do Congresso.
A resposta não pode ser produzida apenas a partir dos fragmentos tornados públicos. Ela depende do cruzamento das mensagens com agendas, registros de entrada, telefonemas, documentos bancários, reuniões, decisões legislativas e depoimentos dos envolvidos.
Até o fechamento desta reportagem, não foi localizada nas fontes públicas consultadas uma manifestação específica de Alcolumbre sobre as mensagens divulgadas em 24 de setembro. Permanece válida, como posição pública documentada do senador no caso, sua negativa de junho sobre o alegado recebimento de recursos de Vorcaro.
Linha do tempo dos principais acontecimentos
- 24 a 26/04/2024 — Londres: mensagens posteriormente divulgadas pela Veja situam Vorcaro, Fábio Faria e referências a Alcolumbre no contexto de encontros privados paralelos a um fórum jurídico realizado na capital britânica. A existência de contatos sociais, isoladamente, não demonstra ilegalidade.
- 01/02/2025 — Senado Federal: Davi Alcolumbre é eleito presidente do Senado pela segunda vez, com 73 votos. Segundo as mensagens reveladas em setembro de 2026, Vorcaro o felicitou e recebeu resposta em que o senador o chamou de irmão “pra vida toda”.
- Novembro de 2025 — Banco Master: Banco Central coloca instituições do grupo Master em regime de resolução e liquidação extrajudicial.
- 04/03/2026 — STF: André Mendonça determina a prisão preventiva de Daniel Vorcaro e outros investigados no Caso Master a pedido da Polícia Federal.
- 09/03/2026 — Senado: é protocolado requerimento para criação de CPI relacionada ao Banco Master, posteriormente objeto de mandado de segurança no STF.
- 20/03/2026 — STF: Segunda Turma mantém, por unanimidade, a prisão preventiva de Vorcaro naquele estágio das investigações.
- 21/05/2026 — Congresso Nacional: parlamentares cobram abertura de CPMI do Master. Alcolumbre não faz a leitura dos requerimentos naquela sessão e sustenta que o momento de leitura integra as atribuições da Presidência.
- 16/06/2026 — Senado: após reportagem sobre suposto pagamento de US$ 30 milhões, Alcolumbre nega ter recebido qualquer valor de Vorcaro no Brasil ou no exterior.
- 13 e 14/09/2026 — PF e STF: Polícia Federal confirma a cadeia de custódia do material retirado do celular de Vorcaro e distribui cópias idênticas da extração a gabinetes de ministros do Supremo.
- 15/09/2026 — STF: pedido de vista de Flávio Dino suspende discussão sobre a tramitação conjunta das Petições 16.662 e 16.704; mérito não é examinado.
- 22 e 23/09/2026 — STF: Cristiano Zanin rejeita liminar para obrigar o Senado a instalar a CPI; Luiz Fux determina que Alcolumbre preste informações em dez dias sobre eventuais registros de acesso ao Senado.
- 24/09/2026 — imprensa: Veja e Folha divulgam novas mensagens atribuídas a Alcolumbre e Vorcaro, acrescentando elementos sobre a proximidade entre ambos e ampliando o escrutínio sobre as relações políticas do ex-controlador do Banco Master.
O elemento novo de maior relevância pública não é a informalidade da linguagem privada, mas a demonstração de que Davi Alcolumbre e Daniel Vorcaro mantinham um canal direto de comunicação e uma relação que, pelas mensagens divulgadas, possuía grau expressivo de proximidade pessoal. Isso justifica aprofundamento da apuração porque Alcolumbre, na condição de presidente do Senado e do Congresso, detém competências capazes de interferir no ritmo de iniciativas parlamentares de fiscalização. Essa circunstância, entretanto, não permite concluir automaticamente que tenha utilizado essas competências em favor do banqueiro.
Há quatro planos que não podem ser confundidos. A existência da extração do celular e sua cadeia de custódia é confirmada oficialmente pela PF. A proximidade entre os dois é sustentada pelos diálogos divulgados pela imprensa. O suposto pagamento de US$ 30 milhões continua sendo uma alegação negada por Alcolumbre e sem comprovação bancária pública conhecida. Já a hipótese de que o senador tenha retardado ou impedido investigações para beneficiar Vorcaro permanece uma interpretação que depende de demonstração de nexo entre os contatos privados e atos funcionais concretos.
A apuração poderá avançar mediante acesso integral às conversas relevantes, perícia dos respectivos metadados, identificação de interlocutores citados por apelidos ou referências indiretas, levantamento de registros de entrada no Congresso e cruzamento com agendas, movimentações financeiras e decisões institucionais. Também será necessário incorporar ao contraditório uma manifestação específica de Alcolumbre sobre as mensagens agora divulgadas, distinta da negativa apresentada em junho sobre o alegado pagamento.
O caso possui relevância pública porque envolve simultaneamente a fiscalização de uma instituição financeira liquidada, a atuação da Polícia Federal, processos no STF e as prerrogativas da Presidência do Congresso Nacional. Os próximos passos cabem ao Senado, que deverá responder às demandas judiciais e decidir sobre os requerimentos de investigação; ao STF, que examina ações relacionadas ao caso; à PF e à PGR, responsáveis pela avaliação criminal dos elementos; e às defesas dos citados, às quais cabe exercer o contraditório. O ponto decisivo será determinar, com documentos e provas independentes, onde terminavam as relações privadas de Vorcaro e onde, eventualmente, elas produziram efeitos sobre atos de interesse público.
Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia



