NYT e WSJ apontam apoio de aliados de Trump à saída de Flávio Bolsonaro do Brasil; Justiça argentina investiga

Nesta sexta-feira (30/10/2026), novos elementos divulgados pela imprensa norte-americana e argentina ampliam a dimensão internacional da saída do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) do Brasil para os Estados Unidos, ocorrida depois de ele ser intimado a entregar seus documentos de viagem e de o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), proibi-lo de deixar o território nacional.

As informações mais recentes avançam sobre uma questão que permanecia aberta nas reportagens anteriores do Jornal Grande Bahia (JGB): quem organizou e financiou a operação que levou Flávio Bolsonaro da fronteira brasileira até Miami e qual foi o grau de participação do governo de Donald Trump.

Reportagens do The New York Times e do The Wall Street Journal, publicadas nesta quinta-feira (29), apontam que integrantes do círculo político de Donald Trump participaram da operação. Segundo o NYT, o jato particular utilizado por Flávio, sua esposa e suas duas filhas teria sido providenciado por Jason Miller, assessor de comunicação ligado à Casa Branca e aliado histórico da família Bolsonaro. O jornal afirma que Miller mantinha contato com Eduardo Bolsonaro, que vive nos Estados Unidos.

A informação sobre participação direta de Miller não foi oficialmente confirmada pela Casa Branca. Miller não comentou a acusação ao NYT, e a Presidência norte-americana limitou-se a remeter a declarações públicas de Trump. Portanto, o envolvimento na logística deve ser tratado, neste momento, como uma informação jornalística atribuída a fontes conhecedoras da operação, e não como fato admitido oficialmente pelo governo dos Estados Unidos.

Jato teria sido organizado depois da ordem de Alexandre de Moraes

Segundo a reportagem do The New York Times, reproduzida pela Folha de S.Paulo e pelo UOL, o plano para transportar Flávio aos Estados Unidos teria sido colocado em execução na segunda-feira (26/10), depois que o senador recebeu a determinação judicial para entregar seus passaportes e permanecer no Brasil.

A informação é particularmente relevante porque estabelece uma conexão temporal direta entre a imposição da medida cautelar e a organização do transporte internacional.

O NYT afirma que Jason Miller teria providenciado o Gulfstream G400 que aguardou a família Bolsonaro em Puerto Iguazú, na Argentina, levou o grupo até Guayaquil, no Equador, para uma escala técnica, e posteriormente seguiu para o Aeroporto Executivo Miami-Opa Locka, na Flórida.

O Wall Street Journal publicou uma reconstrução independente segundo a qual a operação contou com uma pequena rede formada por aliados de Trump, autoridades norte-americanas e interlocutores argentinos. O jornal afirma que a entrada de Flávio nos Estados Unidos foi facilitada por aliados políticos cultivados pela família Bolsonaro ao longo dos últimos anos.

Essas informações representam um avanço em relação à cobertura anterior do JGB, que já havia documentado a passagem pela Argentina, a escala no Equador, o desembarque em Miami e a concessão de autorização migratória temporária, mas ainda registrava como questões não esclarecidas quem havia organizado e financiado o jato e qual havia sido o grau de envolvimento de aliados estrangeiros.

Dono da Baires Fly confirma pagamento de US$ 150 mil vindo dos Estados Unidos

Outro dado novo fortalece a necessidade de investigação sobre o financiamento da viagem.

Luis Grande, proprietário da Baires Fly S.A., empresa argentina responsável pela aeronave utilizada por Flávio Bolsonaro, declarou à agência AFP que o voo foi contratado por um broker do setor aeronáutico residente nos Estados Unidos.

Segundo Grande, o intermediário transferiu US$ 150 mil a partir da conta de uma empresa em um banco norte-americano para uma conta bancária argentina.

O empresário afirmou conhecer o broker há aproximadamente dez anos, mas disse não conhecer a identidade do cliente final que teria contratado o serviço. Ele também se recusou a revelar publicamente o nome do intermediário.

A declaração não comprova, isoladamente, que o dinheiro tenha partido do governo norte-americano ou de Jason Miller. Entretanto, confirma que o pagamento do voo foi organizado por um intermediário estabelecido nos Estados Unidos e realizado a partir de uma conta bancária norte-americana, elemento material que poderá ser confrontado com as informações publicadas pelo NYT sobre o papel atribuído a Miller.

Trump teria garantido entrada de Flávio nos Estados Unidos

As novas apurações também ampliam o conhecimento sobre a participação de Donald Trump na autorização migratória concedida ao senador.

O Jornal Grande Bahia já havia informado que Flávio e seus familiares receberam uma autorização temporária classificada como parole, com validade informada até 27 de outubro de 2027, e que Trump declarou publicamente ter aprovado a entrada do senador.

Agora, segundo autoridades norte-americanas ouvidas pelo The New York Times, a autorização teria sido concedida por determinação do próprio presidente dos Estados Unidos.

O Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos (DHS) confirmou que Flávio e seus familiares foram recebidos, submetidos à inspeção da Customs and Border Protection (CBP) e posteriormente liberados de acordo com os procedimentos migratórios aplicáveis. O DHS, entretanto, não confirmou publicamente os detalhes sobre eventual ordem pessoal de Trump para conceder o benefício.

O parole é uma autorização discricionária de permanência temporária e não equivale a asilo político, visto de residência permanente ou green card.

Fontes americanas dizem que green card poderá ser acelerado

Outro elemento revelado pelo NYT é a possibilidade de Flávio Bolsonaro buscar residência permanente nos Estados Unidos.

Segundo uma autoridade norte-americana ouvida sob condição de anonimato, o senador deverá futuramente solicitar um green card, e o procedimento poderia receber tramitação acelerada.

A fonte comparou a situação ao processo de Eduardo Bolsonaro, que vive no Texas e teria recebido residência permanente em julho de 2026 em prazo considerado excepcionalmente rápido.

Não existe, entretanto, confirmação pública de que Flávio já tenha apresentado formalmente pedido de residência permanente nem de que o governo norte-americano tenha aprovado tal benefício.

O dado confirmado neste momento continua sendo a existência de uma autorização temporária de permanência.

Governo Trump teria interferido na redação da carta de Flávio

A atuação de integrantes do governo norte-americano não teria terminado com a entrada de Flávio nos Estados Unidos.

Reportagem do UOL publicada na quinta-feira afirma que representantes ligados ao Departamento de Estado procuraram interlocutores do senador depois que circulou uma primeira versão de sua carta na qual Flávio se apresentava como “presidente eleito do Brasil”.

Segundo três fontes ligadas à diplomacia norte-americana e um interlocutor estrangeiro ouvidos pelo veículo, os emissários advertiram que a expressão poderia provocar graves consequências diplomáticas nas relações com o governo brasileiro.

Cerca de 40 minutos depois, uma nova versão foi divulgada, substituindo a expressão por “líder do Brasil”. O Departamento de Estado não confirmou oficialmente a intervenção. Paulo Figueiredo, aliado da família Bolsonaro, negou que Washington tenha determinado a alteração.

A informação revela uma aparente divisão dentro da administração norte-americana: setores do governo contribuíram para permitir a presença de Flávio nos Estados Unidos, mas outras áreas demonstraram preocupação com qualquer iniciativa que pudesse ser interpretada como reconhecimento de um governo paralelo ou contestação diplomática formal à legitimidade do presidente brasileiro eleito.

Trump volta a atacar eleição brasileira

Nesta quinta-feira, Trump voltou a questionar publicamente o processo eleitoral brasileiro.

Questionado por jornalistas sobre o resultado da eleição, o presidente norte-americano classificou o pleito como uma “desgraça”, sem apresentar provas de irregularidades capazes de alterar o resultado.

Trump também afirmou que pretende conversar com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas evitou reconhecer a alegação de Flávio Bolsonaro de que teria sido o verdadeiro vencedor.

O resultado proclamado pela Justiça Eleitoral deu a Lula 64.256.232 votos, ou 51,79% dos votos válidos, contra 59.826.041 votos, ou 48,21%, obtidos por Flávio Bolsonaro.

As alegações sobre fraude relacionadas à extensão do horário de votação também foram confrontadas por dados oficiais. Segundo levantamento da Reuters baseado em informações do Tribunal Superior Eleitoral, apenas 34.393 votos, equivalentes a aproximadamente 0,03% do comparecimento, foram registrados depois das 17h, número muito inferior à diferença superior a 4,4 milhões de votos entre os candidatos.

Justiça argentina abre investigação sobre eventual ajuda do governo Milei

A participação estrangeira passou também a ser objeto de investigação judicial na Argentina.

A juíza federal María Eugenia Capuchetti determinou medidas preliminares para apurar se integrantes do governo do presidente Javier Milei facilitaram ou ajudaram a encobrir a passagem de Flávio Bolsonaro pelo território argentino.

A investigação busca esclarecer eventuais irregularidades nos controles migratórios e a participação de autoridades públicas no trânsito do senador entre a fronteira de Puerto Iguazú e o aeroporto.

Capuchetti determinou que o Ministério das Relações Exteriores argentino informe se havia recebido previamente alertas ou comunicações sobre a situação judicial do senador brasileiro.

Também foram solicitados relatórios detalhados da autoridade migratória e imagens das câmeras da Polícia Federal argentina, Gendarmería, autoridade tributária e Aeropuertos Argentina, para reconstruir os movimentos de Flávio e de sua família.

A investigação argentina também examina relatos de que integrantes do governo teriam organizado uma escolta especial. Não há, até o momento, decisão judicial estabelecendo responsabilidade de Milei ou de seus assessores.

PF investiga como senador cruzou a fronteira brasileira

No Brasil, a Polícia Federal mantém investigação sobre as circunstâncias da saída.

Em nota oficial, a corporação informou que havia solicitado ao STF, em 25 de outubro, medidas cautelares diante de informações indicando risco de saída do senador do país.

Depois da decisão de Alexandre de Moraes, os passaportes brasileiros comum e diplomático foram cancelados, um alerta foi inserido no sistema migratório Sonar e Flávio foi intimado a entregar, no prazo de 24 horas, eventuais documentos de viagem de outras nacionalidades. Ele não cumpriu a determinação.

A PF afirma não possuir registro oficial da saída de Flávio Bolsonaro por um posto brasileiro de controle migratório e investiga como o parlamentar conseguiu atravessar a fronteira.

Reportagens publicadas na quinta-feira indicam ainda que investigadores avaliam solicitar ao STF o bloqueio de contas bancárias e de patrimônio do senador. Delegados em Brasília também teriam cobrado esclarecimentos da Superintendência da PF no Paraná sobre como a passagem pela região de Foz do Iguaçu não foi impedida. Essas medidas, contudo, permanecem em fase de avaliação e não equivalem a decisões judiciais já adotadas.

Flávio descumpriu cautelar, mas situação de “foragido” exige distinção jurídica

Embora a palavra “fuga” venha sendo utilizada por Reuters, Agência Brasil e outros veículos para descrever a saída do país em descumprimento à determinação judicial, existe uma distinção jurídica importante.

A própria Polícia Federal afirmou oficialmente que as restrições relacionadas aos documentos de viagem, isoladamente, não caracterizam a condição jurídica de foragido nem autorizam automaticamente prisão ou vigilância permanente.

Até a conclusão desta reportagem, não havia confirmação pública, em fonte oficial consultada, de mandado de prisão preventiva, Difusão Vermelha da Interpol ou pedido de extradição contra o senador.

Isso não reduz a relevância do descumprimento da ordem: Flávio havia sido intimado, declarou publicamente que entregaria os documentos, deixou expirar o prazo, não apresentou eventuais passaportes estrangeiros e posteriormente saiu do território nacional.

A consequência jurídica desses atos dependerá das próximas manifestações da Polícia Federal, da Procuradoria-Geral da República e do Supremo Tribunal Federal.

O que muda em relação às reportagens anteriores do JGB

A cobertura anterior do Jornal Grande Bahia já havia estabelecido que Flávio Bolsonaro deixou o Brasil depois de receber uma ordem que restringia suas viagens, cruzou a fronteira argentina, utilizou documento italiano naquele país, embarcou em um Gulfstream G400, fez escala no Equador e desembarcou em Miami.

Também já estavam documentados o cancelamento dos passaportes brasileiros, o parole norte-americano, a autorização dada pelos Estados Unidos e a manifestação pública de Trump favorável à entrada do senador.

Os novos elementos, ainda não encontrados na cobertura anterior do veículo durante esta apuração, são a atribuição a Jason Miller da contratação do jato; a informação de que a operação teria sido articulada depois da ordem de Moraes; o pagamento de US$ 150 mil por um broker baseado nos Estados Unidos; a informação de fontes americanas de que Trump teria determinado a autorização migratória; a expectativa de eventual tramitação acelerada de um green card; a alegada intervenção de diplomatas norte-americanos na carta de Flávio; e a abertura de investigação judicial na Argentina sobre possível participação de integrantes do governo Milei.

Esses fatos elevam o episódio de uma simples investigação sobre a rota utilizada pelo senador para uma questão de cooperação e possível interferência internacional, com potencial para produzir consequências jurídicas e diplomáticas entre Brasil, Estados Unidos e Argentina.

Ao mesmo tempo, o rigor jornalístico exige manter uma separação clara: a existência de relatos convergentes de grandes veículos internacionais constitui informação de elevado interesse público, mas a participação direta de autoridades norte-americanas na logística da saída ainda não foi formalmente admitida pela Casa Branca nem comprovada por documentação oficial tornada pública.

Leia +

Flávio Bolsonaro chega a Miami após derrota para Lula, e imprensa europeia compara saída do Brasil à viagem de Jair Bolsonaro em 2022

Senadores reafirmam resultado das eleições, criticam questionamentos de Flávio Bolsonaro e divergem sobre brasileiros no exterior

Senador Flávio Bolsonaro contesta eleição dos EUA em carta de teor golpista; TSE, PL e aliados rejeitam fraude, e JGB reafirma defesa da democracia

Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia

Fonte: Clique aqui

Deixe o primeiro comentário