Presidente Lula convoca militância do PT para “guerra eleitoral”, cobra narrativa política e defende alianças amplas para 2026

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva convocou a militância do Partido dos Trabalhadores (PT) e de partidos aliados a se preparar para uma disputa eleitoral dura em 2026, com forte embate de narrativas nas redes sociais e necessidade de alianças amplas nos estados. Durante o ato de celebração dos 46 anos do PT, realizado neste sábado (07/02/2026) em Salvador, Lula afirmou que o partido precisará adotar um discurso político mais combativo, rever estratégias, ampliar a base social e construir coalizões para garantir a vitória nas urnas.

Discurso combativo e foco na narrativa política

Em tom de mobilização eleitoral, Lula afirmou que a próxima disputa presidencial será marcada por confrontos intensos no ambiente digital e por disputas narrativas com a oposição. O presidente disse que a militância deve reagir às informações falsas e atuar de forma mais ativa no debate político.

Segundo ele, o PT não pode depender apenas dos resultados das políticas sociais para garantir a vitória eleitoral. O fator decisivo, na avaliação do presidente, será a capacidade de formular e comunicar um projeto político capaz de mobilizar o eleitorado.

Lula afirmou que pretende disputar a reeleição aos 80 anos e declarou estar motivado para o pleito. Ao mesmo tempo, ressaltou que a eleição não envolverá apenas a permanência do partido no poder, mas também a escolha entre diferentes projetos de país.

Construção de alianças e estratégia nacional

O presidente destacou que o PT não possui força eleitoral suficiente em todos os estados e, por isso, precisará formar alianças políticas amplas. A orientação foi dirigida ao presidente nacional do partido, Edinho Silva, para que negocie composições regionais capazes de ampliar o alcance eleitoral da coligação.

Lula afirmou que acordos políticos fazem parte da estratégia de governabilidade e que o partido não precisa renunciar aos seus princípios para compor com outras legendas. Ele citou a atual aliança com partidos como PSB, PC do B e PDT, além de outras siglas do campo democrático.

O presidente também elogiou o vice-presidente Geraldo Alckmin, apontando a composição com o ex-governador paulista como exemplo de alianças estratégicas capazes de ampliar a base política do governo.

Críticas à mercantilização da política

Durante o discurso, Lula fez críticas ao que chamou de “mercantilização” do sistema político, afirmando que o custo das campanhas e das candidaturas se tornou elevado e distorcido.

O presidente citou o chamado orçamento secreto como um exemplo de deterioração institucional, afirmando que a prática representou uma transferência de poder orçamentário do Executivo para o Congresso. Ele também criticou o próprio PT por ter apoiado a medida em determinados momentos.

Segundo Lula, os parlamentares do partido precisam preservar a coerência com os princípios que marcaram a criação da legenda, evitando a transformação dos mandatos em instrumentos de interesse pessoal ou eleitoral.

Autocrítica e fortalecimento partidário

O presidente afirmou que o PT precisa fazer uma reflexão interna sobre erros estratégicos, especialmente em regiões onde perdeu influência política ao longo dos anos.

Ele citou o caso da Grande São Paulo, onde o partido já governou importantes cidades, mas perdeu espaço nas últimas eleições. Para Lula, o enfraquecimento da legenda em determinados territórios exige uma análise crítica e correção de rumos.

O presidente também alertou para os efeitos das disputas internas, que, segundo ele, prejudicaram o desempenho eleitoral da sigla. Defendeu um partido forte, com unidade interna e capacidade de autocrítica.

Reconexão com periferias e diálogo com evangélicos

Lula afirmou que a campanha de 2026 exigirá uma reaproximação com as periferias urbanas e maior presença do partido nos territórios populares.

Segundo o presidente, o PT não deve esperar que lideranças religiosas façam a defesa do governo. O partido, afirmou, precisa dialogar diretamente com comunidades evangélicas e outros segmentos sociais, retomando a estratégia de contato direto com a população.

A orientação reforça a avaliação interna de que o partido perdeu espaço entre eleitores de baixa renda e segmentos religiosos nos últimos anos.

Cenário da vice-presidência e posição de Alckmin

Nos bastidores, aliados do vice-presidente Geraldo Alckmin afirmam que ele não pretende disputar outro cargo caso deixe a chapa presidencial. A declaração, segundo interlocutores, não representa ameaça de rompimento, e Alckmin seguiria apoiando Lula mesmo fora da candidatura.

Dentro do PT, há setores que defendem a candidatura de Alckmin ao governo ou ao Senado por São Paulo, como forma de fortalecer a campanha presidencial no maior colégio eleitoral do país. O próprio presidente já indicou, em entrevistas, a possibilidade de rever a composição da chapa.

Apesar disso, Lula voltou a elogiar publicamente o vice durante o evento em Salvador, destacando sua lealdade e o papel estratégico na aliança com setores empresariais e do agronegócio.

Os destaques do discurso do presidente Lula

  • Temos que ser mais desaforados, porque eles são. Não podemos ficar quietinhos. Não tem essa mais de Lulinha Paz e Amor.

  • Se preparem, porque nós vamos ganhar essas eleições, e governar com nossos aliados, mais 4 anos.

  • O que vai ganhar essas eleições é nossa narrativa política.

  • Precisamos pensar num outro projeto para esse país.

  • Qual projeto vamos apresentar para despertar nos corações a expectativa de que a gente pode construir um outro país?

  • Não estamos com essa bola toda em todos os estados. Tem estados em que precisamos compor.

  • Precisamos decidir se a gente quer ganhar ou perder.

  • Acordo político é uma coisa tática pra gente poder governar esse país.

  • Agora os nossos deputados são testemunhas de que a política apodreceu.

  • Sabem quanto custa um cabo eleitoral, um vereador, o preço de cada candidatura neste país. O que é uma vergonha.

  • O orçamento secreto foi o sequestro do orçamento do Executivo.

  • Vocês têm a obrigação moral de não deixar esse partido ir para a vala comum da política.

  • Em algum momento erramos. E tem que dizer onde erramos pra corrigir.

  • As brigas internas acabaram com o PT.

  • O partido que tem que ser forte, não é o Lula que tem que ser forte.

  • PT tem que ouvir as periferias.

  • Não podemos esperar que pastores evangélicos falem do governo. Temos que ir dialogar.

No conjunto, o discurso do presidente Lula mistura três camadas: mobilização eleitoral combativa, autocrítica partidária e pragmatismo nas alianças. É a retórica clássica de líder sindical em clima de assembleia — menos marketing, mais trincheira. Em política, a linguagem de guerra costuma aparecer quando os atores percebem que o terreno está escorregadio. A história mostra que, nesses momentos, partidos não disputam apenas votos, mas o próprio sentido do país que pretendem representar.

Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia

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