Protestos no Irã: Presidente Donald Trump promete “ajuda a caminho”, autoridades citam 2.000 mortos e petróleo sobe com temor sobre oferta
O Irã enfrenta uma nova onda de protestos nacionais iniciada em 28/12/2025 após a queda do valor da moeda e o agravamento da crise econômica, enquanto autoridades iranianas afirmam que cerca de 2.000 pessoas morreram nos distúrbios e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou que “a ajuda está a caminho”, sem detalhar a natureza do apoio. Em paralelo, Trump anunciou tarifas de 25% sobre produtos de qualquer país que faça negócios com Teerã, citou a possibilidade de novas ações militares e elevou a pressão sobre um sistema político comandado pelo aiatolá Ali Khamenei desde 1989, em um cenário de apagão de internet, denúncias de prisões em massa e alerta internacional sobre a escalada de violência.
O que desencadeou os protestos e como a crise evoluiu
A atual onda de manifestações começou em 28 de dezembro, quando comerciantes de produtos importados em Teerã reagiram ao colapso repentino da moeda, fecharam lojas e estimularam paralisações. A mobilização rapidamente extrapolou a pauta econômica e se transformou em protestos mais amplos, com reivindicações políticas.
Autoridades iranianas indicaram que, após mais de duas semanas de agitação, aproximadamente 2.000 pessoas teriam morrido. Um grupo de direitos humanos com base nos Estados Unidos informou ter confirmado 2.003 mortes, com 1.850 identificadas como manifestantes, além de 16.784 detidos, em atualização que apontou crescimento expressivo do total de prisões em relação ao dia anterior.
A repressão ocorreu em um ambiente de restrições nas comunicações, incluindo apagão de internet, o que dificultou a verificação independente de informações e reduziu o fluxo de registros em tempo real. Organizações e veículos relataram que, apesar de algum restabelecimento de serviços telefônicos, a internet permaneceu com limitações.
A mensagem de Trump e o endurecimento da pressão econômica e militar
Em publicação nas redes sociais, Trump pediu que iranianos continuem protestando, ocupem instituições e registrem nomes de quem estaria agredindo manifestantes, reiterando que “a ajuda está a caminho”. Questionado posteriormente sobre o significado da frase, recusou-se a esclarecer.
Trump também informou ter cancelado reuniões com autoridades iranianas até que cessasse o que chamou de assassinato de manifestantes. A Casa Branca descreveu uma reunião de segurança nacional sobre o Irã, realizada mais cedo, como um briefing de rotina.
Na noite anterior, Trump anunciou uma medida econômica de alcance extraterritorial: tarifa de 25% sobre produtos de qualquer país que faça negócios com o Irã. A declaração foi acompanhada de menção a opções militares adicionais para punir Teerã pela repressão.
Starlink, comunicação e disputa tecnológica pelo controle da informação
A Bloomberg informou que a SpaceX ofereceria Starlink gratuitamente no Irã. Trump afirmou que planejava conversar com Elon Musk sobre a restauração da internet no país, apontando a conectividade como variável estratégica.
Ao mesmo tempo, o bloqueio quase total de internet foi descrito como obstáculo central para a cobertura e para a coordenação de protestos. A obtenção de imagens passou a depender de verificação visual e de materiais circulando em redes sociais, em ambiente de alto risco de desinformação.
Esse componente tecnológico adiciona uma camada de disputa sobre narrativa, logística de mobilização e capacidade de documentar violações.
Reação do Irã: acusações a EUA e Israel e guerra de narrativas
Autoridades iranianas acusaram Estados Unidos e Israel de fomentar a agitação. O chefe de segurança iraniano, Ali Larijani, afirmou que Trump e o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu seriam os “principais assassinos” de iranianos, elevando o tom em meio ao ambiente de confronto diplomático.
O Irã não apresentou, nos trechos fornecidos, um posicionamento público detalhado sobre o anúncio de tarifas. Ainda assim, o contexto descrito aponta para uma pressão adicional sobre um país já submetido a sanções americanas e com capacidade limitada de manobra financeira e comercial.
Do ponto de vista diplomático, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araqchi, declarou que manteve comunicação com o enviado especial dos EUA, Steve Witkoff, e que Teerã avaliava ideias apresentadas por Washington.
Pena de morte e escalada judicial: caso citado de execução marcada
Uma organização curda de direitos humanos, a Hengaw, informou que Erfan Soltani, de 26 anos, preso em conexão com protestos na cidade de Karaj, seria executado na quarta-feira (14/01). O relato indicou que a família teria sido notificada poucos dias após a prisão e que a sentença seria definitiva.
A informação não teria sido confirmada de forma independente e não havia, até então, registro de sentença de morte na mídia estatal, segundo o trecho apresentado. Ainda assim, o caso é descrito como indicativo de endurecimento do aparato judicial como instrumento de repressão.
Reza Pahlavi, oposição fragmentada e o debate sobre intervenção externa
O texto também descreve o papel de Reza Pahlavi, filho do último xá do Irã deposto em 1979, como voz proeminente na oposição exilada. Ele teria incitado manifestantes e defendido intervenção de Trump, embora sua popularidade interna e a ideia de retorno à monarquia sejam tratadas como incertas e controversas.
Foi mencionado que Witkoff teria se reunido com Pahlavi, segundo reportagem da Axios. Paralelamente, outras vozes defendem mudança pacífica e endógena, sinalizando a fragmentação do campo oposicionista e a disputa sobre estratégia.
O histórico autoritário da era pré-revolucionária é lembrado como fator que limita a aceitação de símbolos monárquicos, apesar do uso de bandeiras pré-revolução em manifestações no exterior e por setores da diáspora.
Impacto imediato nos mercados: petróleo sobe e prêmio de risco cresce
Os preços do petróleo subiram diante do risco de interrupções na oferta iraniana. O Brent avançou US$ 1,60 (2,5%), fechando em US$ 65,47. O WTI encerrou em US$ 61,15, alta de US$ 1,65 (cerca de 2,8%).
Analistas citados associaram a alta ao aumento do prêmio de risco geopolítico. Foi destacado o peso potencial do Irã na oferta global: projeções mencionaram que uma retirada plena do petróleo iraniano poderia reduzir a oferta em 3,3 milhões de barris por dia, caso compradores recuassem.
O Irã é descrito como um dos principais produtores da OPEP, e o texto aponta a China como maior compradora do petróleo iraniano, fator central para avaliar a efetividade de sanções e tarifas secundárias.
China, parceiros comerciais e o alcance das tarifas anunciadas
A reação à política tarifária foi descrita como imediata por parte da China, que criticou o anúncio. O Irã exporta grande parte do petróleo para o mercado chinês e mantém relações comerciais relevantes com Turquia, Iraque, Emirados Árabes Unidos e Índia.
Dados citados indicaram que o Irã exportou para 147 parceiros comerciais (ano-base indicado: 2022), com combustível como principal item exportado em valor. Também foram mencionadas importações de bens intermediários, vegetais, máquinas e equipamentos.
A menção a tarifas sobre “qualquer país” que negocie com o Irã amplia o potencial de contencioso com parceiros comerciais e pressiona cadeias de suprimento e rotas de energia, sobretudo em um contexto já instável no Oriente Médio.
Rússia condena “interferência externa” e alerta para efeitos regionais
A Rússia condenou o que chamou de “interferência externa subversiva” na política interna iraniana e classificou como “categoricamente inaceitáveis” ameaças de novos ataques dos EUA. Moscou afirmou que o uso de distúrbios como pretexto para repetir agressões teria consequências desastrosas para o Oriente Médio e para a segurança internacional.
A declaração fez referência a uma guerra de 12 dias entre Irã e Israel em junho de 2025, durante a qual instalações militares e nucleares iranianas foram atingidas por forças americanas e israelenses.
O pano de fundo, portanto, combina instabilidade doméstica, memória recente de confronto militar e sinalizações de novas ações, compondo um ambiente de risco elevado.
Europa endurece o tom: convocação de embaixadores e avaliação sobre queda do regime
Grã-Bretanha, França, Alemanha e Itália convocaram embaixadores iranianos em protesto contra a repressão. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, mencionou publicamente que o número de vítimas era alarmante.
O chanceler alemão Friedrich Merz questionou a legitimidade da liderança iraniana e afirmou acreditar que o mundo poderia estar testemunhando “os últimos dias e semanas” do regime. O chanceler também sustentou que a violência do Estado contra o próprio povo indicaria fraqueza, não força.
Araqchi rejeitou as críticas de Merz e acusou a Alemanha de adotar dois pesos e duas medidas, alegando destruição de credibilidade, ampliando o atrito entre Teerã e capitais europeias.
Sem sinais de fratura: por que o sistema ainda se mantém
Avaliações citadas apontaram que, apesar da intensidade dos protestos, não há sinais de ruptura na elite de segurança capaz de derrubar o sistema clerical estabelecido desde 1979. Analistas e fontes diplomáticas indicaram que, sem deserções na cúpula, o establishment tende a resistir, ainda que enfraquecido.
A estrutura de segurança do Irã foi descrita como ancorada pela Guarda Revolucionária e pela força paramilitar Basij, que juntas somariam quase um milhão de integrantes, criando uma barreira relevante contra tentativas de coerção externa sem rachaduras internas.
Também foi ressaltado que esta seria a quinta grande revolta desde 2009, sinalizando resiliência institucional, embora “sobrevivência” não seja sinônimo de estabilidade. O país enfrenta sanções, crise econômica e pressão estratégica após danos ao programa nuclear e o enfraquecimento de grupos aliados regionais do chamado “Eixo da Resistência”.
Protestos anteriores e precedentes recentes: 2022-23 como referência
O texto recorda que, em 2022-23, uma onda de protestos foi desencadeada pela morte de Mahsa Amini, de 22 anos, sob custódia policial após ser detida pela polícia da moralidade. A família alegou agressões; as autoridades atribuíram a morte a condições médicas preexistentes.
Naquele período, manifestações se espalharam pelo país, com slogans como “Mulher, vida, liberdade”, ataques a símbolos do regime e reações repressivas com gás lacrimogêneo, cassetetes e, em alguns casos, munição real. Organizações de direitos humanos citaram mais de 500 mortos, incluindo dezenas de menores, além de milhares de prisões e execuções relacionadas aos distúrbios.
A comparação ajuda a dimensionar a gravidade do episódio atual, no qual os números de mortes apresentados são substancialmente mais altos e a restrição de internet é descrita como mais severa.
Pressão externa, estabilidade interna e risco de escalada regional
A combinação de repressão doméstica, sanções e tarifas secundárias e ameaças militares cria um ambiente em que a crise iraniana deixa de ser apenas interna e passa a operar como catalisador geopolítico. A elevação do petróleo evidencia que o mercado lê o episódio como risco sistêmico, sobretudo quando a retórica inclui punições a países terceiros e a possibilidade de interrupção da oferta.
Ao mesmo tempo, o diagnóstico de que não há sinais de fratura na elite de segurança indica que a mudança de regime por pressão externa permanece improvável no curto prazo, a menos que ocorram deserções relevantes. A persistência do aparato de coerção reduz a eficácia de mensagens de apoio simbólico e amplia o risco de que ações externas sejam usadas para consolidar a coesão interna do regime.
Por fim, a escalada retórica entre EUA, Irã e aliados — com Rússia condenando interferência e líderes europeus projetando queda do governo — aumenta o risco de erro de cálculo. Em crises anteriores, a ausência de canais confiáveis de comunicação e a disputa pelo controle da internet elevaram a probabilidade de versões conflitantes e de decisões sob informação incompleta, um padrão que tende a se repetir no cenário atual.
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Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia



