Senador Jaques Wagner venceu Paulo Souto em 2006, encerrou hegemonia carlista no Governo da Bahia e abriu ciclo do PT marcado por PPA participativo e metrô de Salvador
A eleição de Jaques Wagner (PT) para o Governo da Bahia, no domingo (01/10/2006), representou uma mudança na estrutura de poder que comandava o Executivo estadual. Wagner recebeu 3.242.336 votos, equivalentes a 52,89% dos votos válidos, e derrotou no primeiro turno o então governador Paulo Souto (PFL), que obteve 43,03%. O resultado interrompeu a sequência de governos vinculados ao grupo político liderado por Antônio Carlos Magalhães (ACM) e iniciou um ciclo de administrações comandadas pelo PT.
A ruptura eleitoral de 2006 foi interpretada, no debate político e acadêmico, como um dos principais marcos do enfraquecimento do chamado carlismo, expressão utilizada para definir o grupo organizado em torno da liderança de ACM e sua influência sobre a política baiana. Estudos sobre a eleição daquele ano identificam Wagner como o principal representante da oposição a esse campo político.
Ao assumir o governo em 2007, Wagner passou a defender uma relação institucional com os municípios baseada na interlocução com prefeitos independentemente do partido ao qual estivessem vinculados. A premissa era de que obras, serviços e investimentos estaduais deveriam alcançar a população dos municípios também quando suas administrações fossem comandadas por adversários políticos. A caracterização dessa prática como a abertura de um “ciclo republicano” constitui uma interpretação política; os elementos objetivos desse período podem ser examinados a partir das políticas de planejamento participativo, cooperação institucional e infraestrutura executadas posteriormente.
PPA Participativo mobilizou cerca de 40 mil pessoas no primeiro ano de governo
Um dos primeiros instrumentos adotados pela gestão Wagner foi a elaboração participativa do Plano Plurianual (PPA) 2008-2011. Em 2007, o Governo da Bahia realizou 17 plenárias em 17 cidades, envolvendo os então 26 Territórios de Identidade e incorporando representantes da sociedade civil ao processo de definição de prioridades governamentais.
Os registros oficiais indicam que aproximadamente 40 mil pessoas participaram das plenárias, reuniões preparatórias e demais atividades relacionadas ao PPA. Cerca de 12 mil participantes estiveram diretamente nas plenárias, que produziram aproximadamente 8 mil propostas. Documento posterior do governo registrou 11.680 participantes nas reuniões e 8.825 propostas, diferença decorrente da consolidação final dos dados.
O processo introduziu a participação territorial como componente do planejamento estadual. A experiência passou a integrar a estrutura de elaboração dos planos plurianuais seguintes e vinculou o debate orçamentário às demandas apresentadas nas diferentes regiões da Bahia. A avaliação sobre a efetividade de cada proposta depende da análise da execução orçamentária, mas os números documentam a dimensão da mobilização realizada naquele primeiro ciclo administrativo.
Governo do Estado assumiu metrô de Salvador em acordo com a Prefeitura
Outro episódio associado ao período Wagner ocorreu na mobilidade urbana de Salvador. As obras do metrô haviam começado em 2000 sob responsabilidade municipal e permaneceram por aproximadamente 13 anos sem que o sistema entrasse efetivamente em funcionamento para transporte regular de passageiros. Em 2013, Governo da Bahia e Prefeitura de Salvador iniciaram entendimentos para transferir a estrutura ao Estado.
Na segunda-feira (22/04/2013), Jaques Wagner e os prefeitos ACM Neto, de Salvador, e Márcio Paiva, de Lauro de Freitas, assinaram o contrato do Programa de Viabilização do Metrô. O acordo estabeleceu a transferência da administração da Companhia de Transporte de Salvador ao Governo da Bahia e definiu responsabilidades para a conclusão da Linha 1, implantação da Linha 2 e organização da futura integração do sistema.
A transferência exigiu medidas legislativas e administrativas posteriores. O Estado assumiu a condução do sistema, realizou licitação para uma parceria público-privada e passou a responder pela conclusão, operação, manutenção e expansão da rede. A mudança ocorreu mediante articulação entre uma administração estadual comandada pelo PT e uma Prefeitura de Salvador dirigida por ACM Neto, então um dos principais nomes da oposição estadual.
Primeiro trecho do metrô entrou em operação em 2014
Na quarta-feira (11/06/2014), o Governo da Bahia colocou em operação assistida o primeiro trecho do Metrô de Salvador, com participação da então presidente Dilma Rousseff e do governador Jaques Wagner. A etapa inicial compreendia as estações Lapa, Campo da Pólvora, Brotas e Acesso Norte.
A expansão prosseguiu durante os governos seguintes. Rui Costa, sucessor de Wagner a partir de 2015, conduziu novas etapas das linhas 1 e 2, enquanto a gestão de Jerônimo Rodrigues passou a executar projetos adicionais de mobilidade e integração. Em 2026, o sistema chegou a 42 quilômetros, 21 estações e 40 trens, segundo dados apresentados pelo Governo da Bahia no contexto da nova expansão em direção ao Campo Grande.
A sequência de investimentos permite observar um elemento de continuidade administrativa entre as gestões de Jaques Wagner, Rui Costa e Jerônimo Rodrigues. A decisão tomada em 2013 de transferir o metrô para o Estado foi sucedida pela conclusão da estrutura original, ampliação das linhas e novos projetos. A avaliação política sobre os méritos de cada governo permanece sujeita ao debate partidário, mas a cronologia da implantação do sistema está documentada em atos administrativos e registros oficiais.
VLT retoma transporte ferroviário no Subúrbio em operação assistida
O sistema ferroviário do Subúrbio de Salvador também foi incluído na transferência realizada em 2013. Os antigos trens passaram à administração estadual e, posteriormente, foi iniciado o processo de substituição do modal pelo Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), cuja implantação atravessou diferentes projetos, contratos e etapas ao longo dos governos estaduais.
Na segunda-feira (29/06/2026), durante o governo Jerônimo Rodrigues, o VLT iniciou a operação assistida de embarque e desembarque de passageiros no primeiro trecho, entre Calçada e Lobato. A etapa marcou o retorno gradual do transporte ferroviário de passageiros ao Subúrbio e não corresponde, ainda, à conclusão integral de todo o sistema projetado para Salvador e Região Metropolitana.
A trajetória que começa com a eleição de Wagner em 2006, portanto, combina duas dimensões distintas. Na esfera política, houve a interrupção do comando do Executivo estadual pelo grupo associado a Antônio Carlos Magalhães e o início de uma sequência de governos petistas. Na administração pública, políticas como o PPA Participativo, a transferência e expansão do metrô e a implantação do VLT constituem elementos concretos utilizados pelas gestões do PT para sustentar a tese de continuidade de um modelo baseado em participação social, cooperação entre entes públicos e investimentos estaduais em Salvador e no interior.
Um ciclo político iniciado em 2006
Jaques Wagner governou a Bahia entre 2007 e 2014, foi sucedido por Rui Costa, que exerceu dois mandatos, e, posteriormente, por Jerônimo Rodrigues. Wagner ocupa atualmente mandato de senador pela Bahia, correspondente ao período de 2019 a 2027.
A vitória de 2006 constitui, sob o ponto de vista eleitoral, o marco inicial dessa sequência. A expressão “fim do carlismo”, usada à época por setores da imprensa e posteriormente discutida na literatura acadêmica, deve ser compreendida como referência à perda do Governo da Bahia pelo grupo político associado a ACM, e não como desaparecimento dos partidos, lideranças ou bases eleitorais vinculadas historicamente a esse campo.
Quase duas décadas depois, a extensão desse ciclo permite que seus resultados sejam avaliados por indicadores objetivos: eleições, execução orçamentária, cobertura de políticas públicas, investimentos, obras concluídas e qualidade dos serviços prestados. Nesse contexto, 2006 permanece como o ponto de inflexão que modificou a correlação de forças no Governo da Bahia e abriu a sequência administrativa protagonizada por Wagner, Rui Costa e Jerônimo Rodrigues.
Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia




