YouTube consolida liderança global e redefine a “nova Hollywood” ao assumir protagonismo na TV do futuro
O YouTube encerrou 2025 como a principal plataforma audiovisual dos Estados Unidos, liderando simultaneamente o tempo de consumo, o streaming pago e a audiência televisiva, segundo dados da Nielsen. A empresa também assegurou os direitos globais de transmissão dos Óscares a partir de 2029, até então vinculados à ABC por cinco décadas, reforçando uma estratégia que combina produção original, expansão de serviços pagos e centralidade cultural. O movimento sinaliza uma inflexão estrutural no setor, com impactos diretos sobre estúdios tradicionais, plataformas concorrentes e o futuro da televisão.
A plataforma que deixou de ser apenas um repositório
Durante anos, o YouTube foi visto como um motor de busca de vídeos e um espaço de produção amadora. Essa leitura tornou-se insuficiente. A plataforma desenvolveu séries originais, estruturou canais pagos, dominou o mercado de criadores de conteúdo e reposicionou os podcasts ao incorporar o formato em vídeo, ampliando alcance e monetização.
A trajetória inclui casos emblemáticos como Cobra Kai, série derivada de Karate Kid que nasceu no YouTube antes de migrar para a Netflix. Paralelamente, criadores passaram a constituir estúdios independentes, reproduzindo lógicas industriais antes restritas a Hollywood. Para Neal Mohan, presidente da empresa desde 2023, esses criadores são os pioneiros da “nova Hollywood”, expressão que sintetiza a crise do modelo tradicional e a emergência de um ecossistema descentralizado.
Liderança nos Estados Unidos e expansão internacional
Nos Estados Unidos, o YouTube consolidou-se como líder do streaming pago, resultado de uma estratégia que o inseriu nos contratos de direitos de exibição e na distribuição de canais tradicionais via internet, em resposta ao fenômeno do cord-cutting. O serviço inclui pacotes temáticos, canais Primetime e o Sunday Ticket da NFL, ativo que impulsionou milhões de assinaturas.
Globalmente, a plataforma soma 125 milhões de assinantes entre YouTube Premium e YouTube Music e alcança 2,7 mil milhões de utilizadores, segundo a consultoria Limelight Digital. Os grupos etários predominantes concentram-se entre 18 e 44 anos, indicando um público amplo e economicamente relevante, que inclui também o segmento infantil, com fenómenos como Cocomelon.
Receitas, audiência e a disputa com a Netflix
Os resultados financeiros confirmam o peso do YouTube. As receitas trimestrais de publicidade atingiram 30 mil milhões de euros, valor próximo ao faturamento combinado dos grandes estúdios de Hollywood. O contraste com a Netflix é recorrente. Ted Sarandos, presidente da plataforma, chegou a afirmar que “matar tempo é diferente de passar tempo”, ao comparar a navegação fragmentada do YouTube com a curadoria serializada da Netflix, que mantém mais de 300 milhões de assinantes no mundo.
Na prática, porém, a concorrência se intensificou. A Netflix investe em podcasts em vídeo e avalia aquisições estratégicas, enquanto a Amazon Prime Video firmou contrato com MrBeast para produzir Beast Games, uma das maiores apostas em reality competition. A movimentação indica uma convergência: as plataformas tradicionais tentam replicar o modelo que o YouTube consolidou.
Incubadora de talentos e novos estúdios
Controlado pela Alphabet, o YouTube tornou-se um laboratório de propriedade intelectual. Estúdios como a Sony avaliam investir ou adquirir empresas afiliadas à plataforma, visando replicar conteúdos bem-sucedidos em múltiplos formatos. Analistas do setor descrevem o site como o principal espaço de incubação de séries, programas e personalidades.
Publicações especializadas reforçam esse diagnóstico. Para Alex Weprin, do Hollywood Reporter, “2026 é o ano em que o YouTube se torna o verdadeiro rei da TV”. Kevin Mayer, ex-executivo da Disney e do TikTok, sustenta que o “centro de gravidade da juventude” já não está em Hollywood, mas nas plataformas digitais, com destaque para o YouTube.
O peso cultural e as tensões do modelo aberto
A consolidação do YouTube também expõe fragilidades. A plataforma convive com conteúdos de baixa qualidade, críticas ao algoritmo e episódios de controversas ideológicas, que afetam a atratividade publicitária. Doug Shapiro, ex-executivo da Time Warner, descreveu parte do acervo como “lixo”, num diagnóstico que ecoa entre profissionais do setor.
Ainda assim, os dados de consumo favorecem a empresa. Desde 2024, segundo a Nielsen, a maioria dos conteúdos do YouTube nos EUA é vista em televisores, e não em dispositivos móveis. Em Portugal, a plataforma responde por cerca de 66% do consumo de vídeo online e atinge 70% da população em alcance publicitário, conforme dados da Google, cumprindo também obrigações legais de investimento na produção audiovisual nacional.
*Com informações do Jornal Público de Portugal.
Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia




