G3 Polaris, investigada pelo Gaeco em Salvador, recebeu mais de R$ 11 milhões de Jequié na gestão Zé Cocá

A G3 Polaris Serviços, apontada pelo Ministério Público do Estado da Bahia como integrante de um grupo empresarial investigado por possíveis fraudes em licitações e contratos da Prefeitura de Salvador, recebeu mais de R$ 11 milhões da Prefeitura de Jequié entre 2023 e 2025, durante a administração do então prefeito Zé Cocá (PP), conforme levantamento divulgado nesta quinta-feira (16/07/2026) com base em registros oficiais. A empresa acumulou, paralelamente, R$ 124,8 milhões em pagamentos realizados pelo Município de Salvador entre 2015 e julho de 2026, período que abrange as gestões de ACM Neto e Bruno Reis, enquanto o prejuízo preliminar apurado pelo Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas e Investigações Criminais, o Gaeco, alcança R$ 38,3 milhões. Até o momento, não há informação pública de que os contratos de Jequié ou o ex-prefeito Zé Cocá integrem formalmente a investigação conduzida na capital baiana.

Gaeco investiga suposto esquema em contratos de Salvador

A operação foi deflagrada na segunda-feira (13/07/2026) pelo Gaeco, unidade especializada do Ministério Público da Bahia, para apurar a possível atuação coordenada de agentes públicos, empresários e empresas em procedimentos contratados pela administração municipal de Salvador.

As suspeitas envolvem fraudes em licitações, direcionamento de contratos, superfaturamento, peculato, corrupção e lavagem de dinheiro. Segundo as informações conhecidas até esta etapa da investigação, o grupo teria atuado durante aproximadamente dez anos em contratos relacionados principalmente à Secretaria Municipal de Manutenção da Cidade, a Seman, e à Companhia de Desenvolvimento Urbano de Salvador, a Desal.

A Justiça determinou o cumprimento de mandados de busca e apreensão, o afastamento cautelar de agentes públicos, a proibição de contato entre investigados e a indisponibilidade de bens e ativos no valor de R$ 38.321.127,95. Entre os afastados estavam o então secretário municipal de Articulação Comunitária e Prefeituras-Bairro, Luciano Ricardo Gomes Sandes, e o vereador licenciado George Carlos Reis Pereira, conhecido como Gordinho da Favela. As medidas são cautelares e não representam condenação ou antecipação de culpa.

O valor de R$ 38,3 milhões corresponde à estimativa preliminar do possível dano associado aos procedimentos inicialmente examinados. Esse montante não deve ser confundido com a totalidade dos contratos e pagamentos mantidos pelas empresas com a Prefeitura de Salvador, cuja soma alcançou aproximadamente R$ 321,1 milhões entre 2015 e julho de 2026.

Cinco empresas receberam R$ 321,1 milhões em Salvador

Levantamento baseado no Portal da Transparência de Salvador identificou que cinco empresas mencionadas na investigação receberam, conjuntamente, R$ 321.163.273,89 da administração municipal no período analisado.

A distribuição dos pagamentos foi a seguinte:

  • G3 Polaris Serviços: R$ 124.839.733,73;
  • Podium Distribuidora: R$ 85.496.159,40;
  • LN Distribuidora e Comércio: R$ 45.402.729,70;
  • WLSP Logística e Transportes: R$ 37.673.075,97;
  • MP2 Construções: R$ 27.751.575,09.

A G3 Polaris aparece como a empresa que recebeu o maior volume de recursos públicos, com cerca de R$ 124,8 milhões. Os repasses começaram abaixo de R$ 1 milhão no primeiro ano abrangido pelo levantamento e aumentaram progressivamente, ultrapassando R$ 25 milhões em 2022. Até julho de 2026, os registros já indicavam pagamentos superiores a R$ 8,8 milhões no exercício corrente.

O volume global recebido pela companhia, contudo, não autoriza concluir que todos os contratos ou serviços executados estejam sob suspeita. A definição dos procedimentos eventualmente fraudados dependerá da análise individualizada de licitações, contratos, aditivos, medições, notas fiscais, ordens de pagamento e serviços efetivamente prestados.

Informação sobre serviço ao Gabinete do Prefeito exige distinção

Publicações sobre o caso também mencionaram a prestação de serviços ao Gabinete do Prefeito de Salvador em 2018. Os levantamentos mais detalhados atribuem esse vínculo à Podium Distribuidora, segunda empresa com maior volume de pagamentos entre as investigadas, e não diretamente à G3 Polaris.

A Podium manteve relações contratuais com áreas como Saúde e Manutenção da Cidade e teria prestado serviços ao gabinete municipal durante a administração de ACM Neto. Por essa razão, não é possível atribuir à G3 Polaris, sem documentação complementar, a prestação direta de serviços ao gabinete do então prefeito em 2018.

G3 Polaris firmou contratos milionários em Jequié

A atuação da G3 Polaris não ficou restrita à capital baiana. Registros da Prefeitura de Jequié mostram que a empresa foi contratada para executar obras de pavimentação, revitalização viária, implantação de guias e sarjetas e instalação de estruturas em escolas municipais durante a administração de Zé Cocá.

Um dos principais instrumentos foi o Contrato nº 348/2022, no valor global de R$ 23.080.906,46, destinado à execução de pavimentação asfáltica com Concreto Betuminoso Usinado a Quente em ruas dos bairros Jequiezinho, KM 3, Curral Novo, Cidade Nova e Loteamento Santa Luz.

Embora formalizado em 2022, o portal oficial de obras informa que a execução começou em 28 de dezembro de 2023, com término inicialmente previsto para 28 de dezembro de 2024. A página municipal ainda classifica o empreendimento como “em andamento”, registra progresso de 33,54% e apresenta medições acumuladas de R$ 7.741.964,42.

Os dados oficiais indicam, portanto, que pelo menos essa obra continuava identificada como não concluída após o término do prazo originalmente informado. A situação administrativa atual do contrato, incluindo eventuais prorrogações, reprogramações, aditivos ou aplicação de penalidades, depende da divulgação de documentos complementares pela Prefeitura de Jequié.

Revitalização viária, guias e estruturas escolares

Em 2024, a administração municipal celebrou o Contrato nº 247/2024, no valor de R$ 8.549.000, para a revitalização da Avenida Governador Lomanto Júnior, um dos principais corredores viários de Jequié. O trecho contratado compreendia a ligação entre o cruzamento com a Avenida Otávio Mangabeira, no Centro, e o entroncamento com a BR-116, no bairro Cidade Nova.

A G3 Polaris também foi contratada por meio do Contrato nº 304/2024, com valor global estimado de R$ 2.394.758,96, para fornecimento e assentamento de guias e sarjetas em diferentes ruas do município. O extrato oficial estabeleceu vigência entre 21 de junho e 18 de dezembro de 2024.

Em 2025, foi registrado o Contrato nº 198/2025, de R$ 1.798.999,99, destinado à instalação de bancadas em escolas da rede pública municipal. Levantamento divulgado pela TV Jequié afirma que parte dos serviços educacionais envolveu recursos do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica, o Fundeb.

Somados, os valores globais dos quatro contratos mencionados ultrapassam R$ 35,8 milhões. Esse total representa o valor contratado ou estimado, e não necessariamente a quantia efetivamente paga. Os registros de execução orçamentária consultados pelo veículo local apontaram pagamentos superiores a R$ 11 milhões à G3 Polaris entre 2023 e 2025.

Contratação em Jequié não integra investigação anunciada

A investigação conduzida pelo Gaeco está concentrada, até esta etapa, em possíveis irregularidades relacionadas a contratos firmados em Salvador. Não há informação pública de que a Prefeitura de Jequié, Zé Cocá ou os contratos celebrados pelo município com a G3 Polaris tenham sido incluídos no procedimento investigativo.

A existência de contratos entre uma prefeitura e uma empresa posteriormente investigada em outro município também não constitui, isoladamente, prova de ilegalidade. Para estabelecer eventual responsabilidade administrativa, civil ou criminal, seria necessário demonstrar irregularidades específicas no processo licitatório, na execução dos serviços, nas medições, nos pagamentos ou na fiscalização contratual.

A relação contratual, entretanto, cria interesse público suficiente para que os órgãos municipais apresentem informações completas sobre a execução física e financeira das obras, especialmente diante da existência de empreendimento oficialmente marcado como “em andamento”, apesar de possuir previsão de conclusão encerrada em dezembro de 2024.

Caso alcança chapa oposicionista na eleição da Bahia

A repercussão política decorre da posição atualmente ocupada pelos ex-prefeitos envolvidos no debate eleitoral. ACM Neto, que administrou Salvador entre 2013 e 2020, é pré-candidato do União Brasil ao Governo da Bahia em 2026.

Em 26 de março, Neto anunciou Zé Cocá como pré-candidato a vice-governador em sua chapa. O então prefeito de Jequié renunciou ao mandato em 2 de abril de 2026, transferindo o comando do Município ao vice-prefeito Flávio Gondim Oliva Santana, conhecido como Flavinho Santana, para cumprir as exigências de desincompatibilização eleitoral.

Bruno Reis, sucessor político de ACM Neto, permanece à frente da Prefeitura de Salvador. A administração municipal informou que cumpriria as determinações judiciais, colaboraria com as investigações e instauraria procedimento administrativo destinado a verificar a existência de eventual prejuízo ao erário relacionado aos fatos apurados.

A associação política entre os gestores não significa que eles sejam pessoalmente investigados ou responsabilizados pelos atos atribuídos a empresas, servidores ou demais agentes públicos. A relevância eleitoral surge da necessidade de explicações sobre os sistemas de contratação, controle, fiscalização e pagamento mantidos durante as respectivas administrações.

Linha do tempo

2015

Começa o período abrangido pelo levantamento dos pagamentos realizados pela Prefeitura de Salvador às cinco empresas mencionadas na investigação. A G3 Polaris recebeu menos de R$ 1 milhão no primeiro ano analisado.

28 de dezembro de 2023

Tem início a execução do Contrato nº 348/2022, firmado pela Prefeitura de Jequié com a G3 Polaris para pavimentação de bairros, com valor global de R$ 23,08 milhões.

2024

A Prefeitura de Jequié contrata a companhia para revitalizar a Avenida Governador Lomanto Júnior por R$ 8,54 milhões e para fornecer e instalar guias e sarjetas por R$ 2,39 milhões.

28 de dezembro de 2024

Encerra-se o prazo de conclusão inicialmente informado para a pavimentação dos bairros de Jequié. O portal municipal ainda apresenta a obra como em andamento, com execução de 33,54%.

2025

A G3 Polaris firma contrato de R$ 1,79 milhão para instalação de bancadas em escolas municipais. O total pago pela Prefeitura de Jequié entre 2023 e 2025 ultrapassa R$ 11 milhões.

26 de março de 2026

ACM Neto anuncia Zé Cocá como pré-candidato a vice-governador em sua chapa para a eleição estadual.

2 de abril de 2026

Zé Cocá renuncia à Prefeitura de Jequié para disputar o pleito estadual.

13 de julho de 2026

O Gaeco deflagra a operação sobre possíveis fraudes em contratos de Salvador. A Justiça determina buscas, afastamentos cautelares, restrições de contato e indisponibilidade de bens superior a R$ 38,3 milhões.

15 de julho de 2026

Levantamento baseado no Portal da Transparência de Salvador revela que as cinco empresas mencionadas na investigação receberam R$ 321,1 milhões entre 2015 e julho de 2026. A G3 Polaris lidera os pagamentos, com R$ 124,8 milhões.

16 de julho de 2026

São divulgadas informações sobre os contratos e pagamentos realizados pela Prefeitura de Jequié à G3 Polaris durante a gestão de Zé Cocá.

Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia

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