Polícia Federal não confirma pagamento de R$ 100 mil a jornalista por matérias contra ministro Flávio Dino
A Polícia Federal (PF) não conseguiu confirmar que o jornalista Luís Pablo Conceição Almeida tenha recebido R$ 100 mil para publicar matérias contra o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino. A conclusão consta de relatório encaminhado ao ministro Alexandre de Moraes, relator da investigação, após análise do celular do jornalista, apreendido em março por determinação judicial. A informação foi divulgada pela Folha de S.Paulo.
O documento, elaborado em maio, registra que os elementos examinados até aquele momento não permitiam afirmar com máxima certeza que a quantia correspondia a pagamento por conteúdo jornalístico. A PF indicou a necessidade de aprofundar a análise das mídias disponíveis no aparelho e de realizar novas diligências para esclarecer a origem e a finalidade da movimentação financeira.
Em uma análise posterior, divulgada em julho, a PF apontou que os R$ 100 mil teriam sido transferidos por um informante do jornalista a um terceiro e posteriormente utilizados na quitação de um imóvel relacionado a Luís Pablo. A movimentação passou a integrar a investigação sobre a possível relação entre recursos financeiros e as reportagens publicadas sobre Flávio Dino.
Investigação começou após reportagens sobre Flávio Dino
O caso envolve reportagens de Luís Pablo sobre o suposto uso de veículos oficiais do Tribunal de Justiça do Maranhão (TJ-MA) por Flávio Dino e familiares, durante o período em que o atual ministro do STF ocupava posições públicas no Maranhão. As apurações passaram a ser examinadas dentro de uma investigação que busca esclarecer a origem das informações utilizadas pelo jornalista e eventual existência de pagamento por conteúdo.
Segundo informações divulgadas durante a investigação, a PF analisou o telefone do jornalista após uma busca e apreensão realizada em março de 2026. A partir dos dados encontrados no aparelho, foram identificadas movimentações financeiras e informações relacionadas às pessoas apontadas como possíveis fontes do jornalista.
Luís Pablo nega ter recebido dinheiro para publicar reportagens contra Dino. Em declarações públicas, afirmou que os R$ 100 mil estavam relacionados a um empréstimo pessoal feito pelo advogado Diogo Diniz Lima e que o valor teria sido utilizado em uma negociação imobiliária. O jornalista também negou ter monitorado o ministro ou cometido irregularidades no exercício da atividade profissional.
PF não atribui ao jornalista violação de sigilo funcional
Além da apuração sobre a movimentação financeira, os documentos analisados pela PF não atribuíram a Luís Pablo o crime de violação de sigilo funcional, segundo informações divulgadas em 19/08/2026. A corporação também não concluiu que o valor de R$ 100 mil tenha sido pago em troca da publicação das reportagens.
A investigação, contudo, não foi encerrada. A PF indicou a necessidade de novas análises para esclarecer as informações encontradas nos dispositivos eletrônicos e a relação entre os envolvidos. O caso também envolve a suspeita de que informações sigilosas tenham sido obtidas e repassadas ao jornalista, hipótese que permanece sob apuração.
A movimentação financeira passou a ter relevância porque os investigadores buscaram verificar se existia conexão entre o pagamento, as fontes das informações e as matérias publicadas sobre Dino. A defesa do jornalista sustenta que não há relação entre o dinheiro e o conteúdo jornalístico divulgado.
Busca contra fontes amplia discussão sobre sigilo jornalístico
Na terça-feira (11/08/2026), Alexandre de Moraes autorizou mandados de busca e apreensão contra pessoas apontadas como fontes ou intermediários relacionados às informações utilizadas por Luís Pablo. Entre os alvos estava Raimundo Soares Cutrim, ex-secretário de Assuntos Legislativos do Maranhão, além do advogado Diogo Diniz Lima.
Cutrim é apontado na investigação como uma possível fonte de informações utilizadas nas reportagens. A operação foi autorizada com anuência da Procuradoria-Geral da República (PGR). O caso envolve ainda a apuração sobre eventual obtenção irregular de informações relacionadas à segurança de Flávio Dino e de seus familiares.
A realização das buscas provocou manifestações de entidades ligadas à imprensa e colocou em discussão o alcance constitucional do sigilo da fonte jornalística, previsto no artigo 5º, inciso XIV, da Constituição. Organizações do setor questionaram a medida, enquanto Moraes afirmou que o sigilo da fonte não pode ser utilizado para encobrir eventual prática criminosa.
Fachin sinaliza análise da decisão pelo STF
Na quinta-feira (13/08/2026), o presidente do STF, Edson Fachin, afirmou que a decisão de Moraes relacionada às fontes do jornalista seria reavaliada de forma colegiada. Fachin defendeu a proteção constitucional da liberdade de imprensa e do sigilo da fonte em atividades jornalísticas legítimas.
No mesmo contexto, Moraes sustentou que a garantia constitucional não poderia servir como proteção para práticas ilícitas. O ministro afirmou que a investigação envolve suspeitas que ultrapassariam o exercício regular da atividade jornalística e que a proteção ao sigilo da fonte não impediria a apuração de possíveis crimes.
A discussão sobre o órgão responsável por analisar a decisão também gerou divergências internas no STF. Informações divulgadas em 19/08/2026 indicaram que havia discussão sobre a possibilidade de análise pela Primeira Turma ou pelo plenário da Corte, após a manifestação pública de Fachin.
O que o relatório da PF estabelece até agora
A documentação produzida pela Polícia Federal permite distinguir suspeitas investigadas de conclusões já estabelecidas. O relatório analisado não confirmou que os R$ 100 mil tenham sido pagos ao jornalista como contraprestação pela publicação de matérias contra Flávio Dino. Também não atribuiu a Luís Pablo, nesse ponto da investigação, o crime de violação de sigilo funcional.
Ao mesmo tempo, a PF manteve a necessidade de aprofundar a apuração sobre a origem dos recursos, a movimentação financeira, as fontes das informações e a eventual obtenção irregular de dados. A existência de novas diligências demonstra que a investigação ainda não chegou a uma conclusão definitiva sobre todos os fatos examinados.
O caso reúne, portanto, duas questões distintas: a apuração sobre eventual pagamento por conteúdo jornalístico e a discussão sobre o sigilo da fonte. Enquanto a primeira permanece sem confirmação definitiva no relatório citado, a segunda envolve decisões judiciais, manifestações de ministros do STF e questionamentos de entidades de imprensa sobre os limites da investigação.
Personagens e instituições envolvidos
- Luís Pablo Conceição Almeida: jornalista maranhense autor das reportagens investigadas. Nega ter recebido R$ 100 mil para produzir conteúdo contra Flávio Dino.
- Flávio Dino: ministro do STF citado nas reportagens que deram origem à investigação. As acusações relacionadas ao uso de veículos oficiais são contestadas por ele e pelo TJ-MA.
- Alexandre de Moraes: ministro do STF responsável por decisões judiciais no caso e pela autorização das buscas contra pessoas apontadas como fontes do jornalista.
- Edson Fachin: presidente do STF que defendeu a proteção à liberdade de imprensa e indicou a necessidade de análise colegiada da decisão relacionada às fontes.
- Raimundo Soares Cutrim: ex-secretário de Assuntos Legislativos do Maranhão apontado como possível fonte das informações utilizadas pelo jornalista.
- Diogo Diniz Lima: advogado citado na movimentação financeira de R$ 100 mil e alvo de medidas de busca e apreensão.
- Polícia Federal: responsável pelas análises dos dispositivos e pela produção dos relatórios encaminhados ao STF.
- Procuradoria-Geral da República: deu anuência às medidas de busca autorizadas por Moraes.
*Com informações da Sputnik News.
Redação do Jornal Grande Bahia




