‘Tempestades de calor’ saltam de 5 para 102 por ano; Vera alcançou 85% do planeta em 367 dias, revela Reuters
Na terça-feira (20/10/2026), a Reuters divulgou uma investigação baseada em mais de seis décadas de dados climáticos que identifica uma mudança expressiva na dimensão, duração e frequência das ondas de calor ao redor do planeta. A agência criou a denominação “tempestade de calor” para classificar ondas excepcionalmente extensas, capazes de atingir simultaneamente pelo menos 1% da superfície terrestre. Segundo a análise, esses eventos passaram de uma média aproximada de cinco por ano na década de 1960 para 102 por ano nesta década. O maior em extensão acumulada, denominado Vera, persistiu por 367 dias, entre julho de 2023 e julho de 2024, e passou por quase 85% da superfície global, conectando episódios extremos registrados das Américas à Europa, África e Ásia.
A investigação, denominada The Age of Heat Storms, analisou mais de 600 bilhões de estimativas de temperatura, distribuídas por 1,04 milhão de quadrículas ao redor do planeta, com informações horárias desde 1960. A base utilizada foi o ERA5, sistema de reanálise climática produzido pelo Copernicus Climate Change Service (C3S) no Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo — ECMWF. A Reuters também consultou cerca de duas dezenas de climatologistas, meteorologistas e pesquisadores para definir o método.
O que a Reuters define como “tempestade de calor”
A expressão “tempestade de calor” não constitui, até o momento, uma classificação meteorológica oficial da Organização Meteorológica Mundial (OMM) nem uma categoria formal consolidada pela comunidade científica. O conceito foi desenvolvido pela Reuters como instrumento analítico e de comunicação para diferenciar ondas de calor de extensão excepcional das ocorrências regionais tradicionais. A própria agência registra que alguns cientistas manifestaram objeção ao emprego da palavra “tempestade”, por ela possuir significado meteorológico específico.
Pela metodologia desenvolvida, uma onda de calor ocorre quando as máximas diárias de determinada área permanecem, durante pelo menos cinco dias, próximas ou acima do 90º percentil da distribuição histórica correspondente àquele local e época do ano. A referência climática utilizada é o período de 1961 a 1990. Isso permite considerar as diferenças entre regiões: uma temperatura extraordinária para uma cidade de clima frio pode não representar anomalia em uma área tropical ou desértica.
Quando as quadrículas contíguas submetidas à onda de calor formam uma área que, em algum momento, alcança pelo menos 1% da superfície do planeta — extensão equivalente aproximadamente à metade do território canadense —, o sistema da Reuters classifica o fenômeno como uma tempestade de calor e atribui a ele um nome próprio.
ERA5 permite reconstruir oito décadas do clima
O ERA5, fonte fundamental da investigação, combina observações provenientes de estações meteorológicas, satélites, balões, navios e outras plataformas com modelos numéricos para produzir uma representação global consistente da atmosfera. O conjunto disponibiliza estimativas horárias desde 1940, em uma grade espacial aproximada de 31 quilômetros.
Trata-se de uma reanálise climática, e não de uma rede composta exclusivamente de medições diretas. O próprio ECMWF ressalta que reanálises integram observações e modelos por meio de sistemas de assimilação de dados. Essa característica fornece cobertura global uniforme, mas também significa que as estimativas apresentam incertezas, principalmente em regiões de relevo complexo e em períodos históricos com menor disponibilidade de observações.
Eventos passam de cinco para 102 por ano
O contraste histórico encontrado pela Reuters é expressivo. Na década de 1960, as tempestades de calor identificadas pelo método ocorriam, em média, cerca de cinco vezes por ano. Nos anos 2020, a média chegou a aproximadamente 102 eventos anuais.
A maior onda identificada nos anos 1960 alcançou aproximadamente 6% do planeta durante 46 dias, deslocando-se pelo Atlântico, por partes da América Latina e da África Ocidental. Eventos dessa dimensão deixaram de representar exceções isoladas nas décadas seguintes.
Outro indicador mostra a transformação estrutural. Na década de 1960, as tempestades de calor respondiam, em média, por cerca de 3% dos dias classificados como excepcionalmente quentes em determinado ponto da Terra. Nesta década, sua participação se aproxima de 43%. Paralelamente, a área média do planeta sujeita a ondas ou tempestades de calor aumentou mais de 12 vezes desde os anos 1960, segundo os cálculos da Reuters.
O movimento ocorre na direção oposta ao observado nos extremos frios. A análise identificou redução de quase 80% na área média submetida a ondas ou grandes eventos de frio durante um dia de inverno, quando se compara a década de 1960 com os anos 2020. O resultado é compatível com a literatura científica consolidada: o IPCC considera virtualmente certo que extremos de calor se tornaram mais frequentes e intensos na maior parte das regiões continentais desde os anos 1950, enquanto extremos frios diminuíram em frequência e intensidade, tendo a influência humana como principal fator dessas alterações.
Vera percorreu quase 85% do planeta durante 367 dias
O caso utilizado pela Reuters para demonstrar a nova escala do fenômeno foi denominado Tempestade de Calor Vera. O evento começou em 29/07/2023 e terminou em 29/07/2024, completando 367 dias. Durante sua trajetória, a área associada ao sistema passou por quase 85% da superfície terrestre.
O percentual não significa que 85% da Terra esteve simultaneamente sob calor extremo. Trata-se da soma das áreas atravessadas pela tempestade durante toda sua existência. O maior alcance simultâneo de Vera ocorreu em 05/01/2024, quando aproximadamente 31,3% do planeta estava inserido na estrutura identificada pela Reuters.
A investigação relaciona Vera a uma sequência de episódios extremos em diferentes continentes. O vínculo estabelecido pelo levantamento é espacial e temporal: esses territórios estavam inseridos na mesma estrutura de calor identificada pelo método. Isso não significa que a tempestade seja, isoladamente, a causa exclusiva de cada desastre, porque secas, incêndios, enchentes, perdas agrícolas e mortalidade humana ou animal geralmente resultam da interação entre temperatura, precipitação, umidade, condições ambientais, vulnerabilidade social e outros fatores.
Brasil: Lago Tefé chegou a 41°C e mais de 200 botos morreram
Um dos episódios mais graves ocorreu na Amazônia brasileira durante a seca de 2023. Em 28/09/2023, pesquisadores que trabalhavam no Lago Tefé, no Amazonas, passaram a registrar uma mortandade incomum de botos. A Reuters relata que Vera permaneceu sobre a região durante quase sete meses e que, antes do pico da crise, o lago ficou submetido à tempestade de calor por 42 dias consecutivos.
Pesquisas posteriormente divulgadas por instituições brasileiras confirmaram temperaturas excepcionalmente elevadas. O CNPq informou que as águas rasas do Lago Tefé atingiram aproximadamente 41°C em 2023, quando valores diurnos normais costumavam ficar próximos de 29°C a 30°C. O aquecimento foi favorecido pela combinação entre nível extremamente baixo da água, elevada radiação solar e pouco vento.
O Instituto Mamirauá contabilizou 209 animais mortos durante a crise, dos quais 178 eram botos-vermelhos, e apontou o aquecimento extremo da água como fator determinante. Estudos também documentaram redução aproximada de 75% da superfície do Lago Tefé, de 379 km² para 95 km², durante a seca extrema.
A ocorrência tornou-se um exemplo concreto de como extremos de calor podem atingir simultaneamente biodiversidade, recursos hídricos e populações humanas. Comunidades da região enfrentaram dificuldades de navegação, abastecimento, acesso à saúde e deslocamento, enquanto o ecossistema aquático ficou submetido a condições raramente observadas em grandes lagos tropicais.
Espanha, Filipinas e África Ocidental mostram efeitos econômicos e sociais
Na Espanha, sucessivas tempestades de calor e a escassez de chuvas afetaram a produção de azeite de oliva. Na região de Carcabuey, Vera permaneceu durante 127 dias ao longo de sua trajetória. A produção espanhola foi reduzida aproximadamente à metade naquele período e os preços do produto subiram 44%, segundo os dados reunidos pela Reuters.
Nas Filipinas, o calor extremo provocou interrupções de aulas presenciais e alterações posteriores no calendário escolar. Em Tacloban, a comparação histórica feita pela Reuters mostra mudança particularmente acentuada: durante toda a década de 1960, a cidade teria permanecido apenas sete dias dentro de tempestades de calor; nesta década, até a data da análise, já eram mais de 1.470 dias, equivalentes a mais de 200 dias anuais.
Na Costa do Marfim e em Gana, responsáveis conjuntamente por aproximadamente metade da produção mundial de cacau, calor, seca, doenças das plantas e efeitos associados ao El Niño atingiram lavouras entre 2023 e 2024. A Reuters relata que a colheita nos dois países caiu pela metade e que o preço internacional do cacau quase triplicou em 2024.
Esses episódios demonstram uma das dimensões econômicas dos extremos térmicos: perdas de produção em regiões agrícolas estratégicas podem atravessar fronteiras por meio das cadeias globais de alimentos, elevando preços, reduzindo renda de produtores e transmitindo impactos climáticos locais para consumidores de outros continentes.
Calor extremo amplia risco à saúde humana
Os impactos sobre a saúde não se limitam a episódios excepcionais. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que, entre 2000 e 2019, ocorreram aproximadamente 489 mil mortes relacionadas ao calor por ano no mundo. Cerca de 45% foram registradas na Ásia e 36% na Europa.
Entre pessoas com mais de 65 anos, a mortalidade relacionada ao calor aumentou aproximadamente 85% quando se compara o período de 2000 a 2004 com 2017 a 2021. A exposição térmica pode agravar doenças cardiovasculares, diabetes, problemas respiratórios e outras condições, além de elevar os riscos para trabalhadores expostos ao calor e pessoas sem acesso adequado a refrigeração ou espaços protegidos.
Em junho de 2026, a OMS Europa informou que mais de 200 mil pessoas haviam morrido por causas associadas ao calor na União Europeia e países relacionados durante os quatro anos anteriores, acrescentando que grande parcela dessas mortes poderia ser evitada mediante planejamento, alertas precoces e políticas públicas adequadas.
Sequência planetária de eventos não é interrompida desde 2008
A Reuters identificou ainda aquilo que denomina “cascatas de tempestades de calor”: eventos que se sucedem, ocorrem simultaneamente, se fundem ou se dividem, mantendo alguma região do planeta submetida continuamente a uma grande estrutura de calor.
Nos anos 1960, essas cascatas duravam aproximadamente dois meses, em média. No início dos anos 2000, a duração média já havia aumentado para aproximadamente nove meses. Em 06/07/2008, começou uma sequência que, segundo a análise atualizada até outubro de 2026, ainda não havia terminado.
Até a publicação da investigação, eram mais de 18 anos consecutivos em que ao menos uma tempestade de calor permanecia ativa em alguma região da Terra. Antes dessa sequência, entre 1960 e julho de 2008, somente cinco tempestades haviam alcançado simultaneamente mais de um décimo da superfície do planeta. Desde então, a Reuters identificou 56 eventos dessa dimensão.
Raimundo supera o pico simultâneo de Vera em 2026
A tempestade Raimundo, iniciada em 28/02/2026, mostra que a dinâmica observada durante Vera não terminou. Até 20/10/2026, o sistema acumulava 235 dias de duração e já havia atravessado quase três quartos da superfície planetária.
Em 28/08/2026, Raimundo cobriu simultaneamente 33,8% do planeta, superando o recorde anterior de Vera, que alcançara 31,3% em 05/01/2024. Vera, entretanto, continuava sendo o maior evento em extensão acumulada ao longo de sua duração, por ter passado por quase 85% da superfície terrestre.
Raimundo esteve associado, segundo a investigação, ao período de calor intenso e aos grandes incêndios registrados na Espanha e na França durante o verão europeu de 2026. A continuidade do sistema reforça a necessidade de distinguir dois parâmetros diferentes: a área atingida simultaneamente em determinado dia e a área total percorrida durante toda a existência da tempestade.
Aquecimento global fornece o pano de fundo físico
Os resultados encontrados pela Reuters estão inseridos em um processo climático documentado por diferentes instituições científicas. O Copernicus informou em janeiro de 2026 que 2025 foi o terceiro ano mais quente já registrado, com temperatura média global aproximadamente 1,47°C acima do período pré-industrial de 1850 a 1900.
Os anos de 2023, 2024 e 2025, considerados conjuntamente, formaram o primeiro período de três anos com média superior a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais. Em 2024, a anomalia anual do ERA5 alcançou 1,60°C, tornando aquele ano o mais quente registrado pela série. O Copernicus estima atualmente que o aquecimento global de longo prazo esteja próximo de 1,4°C.
O IPCC conclui que a influência humana aqueceu inequivocamente atmosfera, oceanos e continentes e que as mudanças climáticas causadas por atividades humanas já afetam extremos meteorológicos em todas as regiões do planeta. Para eventos de calor, o painel considera extremamente provável que a influência humana seja o principal fator do aumento observado em intensidade e frequência em escala global.
Na própria série calculada pela Reuters, a concentração atmosférica de dióxido de carbono aumentou mais de 30% desde a década de 1960, enquanto cresceu simultaneamente a proporção da superfície terrestre exposta a ondas e tempestades de calor. A correlação é coerente com o mecanismo físico do aquecimento provocado por gases de efeito estufa já estabelecido pela ciência climática.
El Niño pode ampliar extremos até 2027
A investigação também aponta o El Niño como um amplificador natural das temperaturas globais em determinados períodos. O fenômeno não causa o aquecimento global de longo prazo, mas modifica a circulação atmosférica e oceânica e pode adicionar calor temporariamente ao sistema climático.
A atualização mais recente acrescenta um elemento relevante ao cenário. Nesta quarta-feira (21/10/2026), a secretária-geral da Organização Meteorológica Mundial, Celeste Saulo, afirmou que o El Niño atualmente em desenvolvimento pode alcançar intensidade sem precedentes nos sistemas de monitoramento utilizados nas últimas quatro décadas. A projeção da OMM indica que a temperatura da superfície do Pacífico tropical pode atingir até 3,8°C acima da média entre novembro de 2026 e janeiro de 2027.
A NOAA, em boletim publicado em 08/10/2026, também informou que o El Niño continuava se fortalecendo, com probabilidade superior a 83% de permanecer na categoria forte a muito forte até o trimestre janeiro-março de 2027. A intensidade do fenômeno não determina individualmente uma onda de calor em determinado município ou país, mas modifica probabilidades de anomalias de temperatura e precipitação em diferentes regiões.
O conceito amplia comunicação, mas não substitui atribuição científica
A principal inovação da investigação da Reuters não consiste em demonstrar que as ondas de calor estão aumentando — conclusão já consolidada pela literatura científica —, mas em desenvolver um método uniforme para acompanhar eventos térmicos continentais e transcontinentais como estruturas contínuas no espaço e no tempo.
O sistema tem potencial para mostrar que episódios percebidos localmente como fenômenos independentes podem fazer parte de uma mesma anomalia térmica de escala planetária. O objetivo declarado pela agência é semelhante ao alcançado pela nomeação de furacões: permitir que população, governos e instituições acompanhem um evento ao longo de sua evolução.
Essa comparação, entretanto, deve ser feita com cautela. Furacões são sistemas meteorológicos definidos por circulação atmosférica, pressão, vento e critérios operacionais reconhecidos internacionalmente. As “tempestades de calor” da Reuters são uma categoria analítica própria, construída a partir de continuidade espacial, duração e percentis de temperatura.
Por isso, a presença de determinada catástrofe dentro dos limites temporais e espaciais de uma tempestade de calor não comprova, por si só, que o aquecimento tenha sido a única causa do episódio. A determinação da contribuição das mudanças climáticas para incêndios, secas, enchentes, perdas agrícolas ou colapsos de ecossistemas específicos exige estudos de atribuição e análise das demais variáveis envolvidas.
Adaptação passa a integrar planejamento de cidades e sistemas públicos
A escala do risco tem levado organismos internacionais a defender políticas específicas para calor extremo. Em junho de 2026, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) lançou uma iniciativa envolvendo mais de 50 cidades para avaliar sistemas urbanos, desenvolver planos de preparação e ampliar estratégias de adaptação térmica. Entre as cidades brasileiras participantes estão Teresina, Campinas e Fortaleza.
As medidas envolvem sistemas de alerta, arborização, proteção de trabalhadores, adequação de escolas e unidades de saúde, planejamento energético, disponibilidade de água, infraestrutura urbana e identificação antecipada de grupos vulneráveis.
A questão também alcança o âmbito municipal brasileiro. Em Feira de Santana, por exemplo, a adesão ao programa federal AdaptaCidades, em outubro de 2026, prevê apoio técnico para elaboração de estratégias locais diante dos impactos das mudanças climáticas, mostrando como o problema global progressivamente ingressa no planejamento das administrações locais.
Linha do tempo dos principais acontecimentos
- Década de 1960 — Pela metodologia retrospectiva da Reuters, ocorriam aproximadamente cinco tempestades de calor por ano. A maior onda do período atingiu cerca de 6% do planeta durante 46 dias.
- 06/07/2008 — Começa a sequência de tempestades de calor que, segundo a análise, permanece ininterrupta até outubro de 2026, com pelo menos um desses eventos ativo em alguma região do planeta.
- 29/07/2023 — Tem início a Tempestade de Calor Vera, posteriormente identificada como o maior evento em extensão acumulada da série analisada pela Reuters.
- Setembro e outubro de 2023 — Águas do Lago Tefé, no Amazonas, alcançam temperaturas próximas de 41°C durante a seca extrema; mais de 200 botos morrem na região.
- 05/01/2024 — Vera alcança seu maior tamanho simultâneo, cobrindo aproximadamente 31,3% da superfície terrestre.
- 29/07/2024 — Vera termina após 367 dias, tendo atravessado quase 85% do planeta ao longo de sua trajetória.
- 2025 — A temperatura média global fica 1,47°C acima do nível pré-industrial; o ano torna-se o terceiro mais quente da série do Copernicus.
- 28/02/2026 — Começa a Tempestade de Calor Raimundo.
- 28/08/2026 — Raimundo cobre simultaneamente 33,8% da superfície terrestre, superando o pico geográfico de Vera.
- 20/10/2026 — A Reuters publica a investigação The Age of Heat Storms. Raimundo contabilizava então 235 dias e já havia passado por quase três quartos da superfície planetária.
- 21/10/2026 — A OMM alerta que o El Niño em desenvolvimento pode alcançar intensidade inédita nos registros utilizados nas últimas quatro décadas e projeta anomalia de até 3,8°C no Pacífico tropical entre novembro de 2026 e janeiro de 2027.
A investigação da Reuters fornece uma nova escala para compreender um processo já estabelecido pela ciência climática. O ponto central não é a criação de uma nova prova de que o planeta está aquecendo, mas a demonstração quantitativa de que episódios antes percebidos como ondas de calor regionais podem integrar estruturas térmicas extremamente extensas e persistentes. A passagem de aproximadamente cinco para 102 eventos anuais, dentro da metodologia adotada, torna especialmente relevante a discussão sobre saúde pública, segurança alimentar, infraestrutura, proteção ambiental e capacidade de adaptação.
É igualmente necessário preservar a distinção entre conhecimento científico consolidado e classificação jornalístico-analítica. O aumento da frequência e intensidade dos extremos de calor e a participação humana no processo são conclusões sustentadas pelo IPCC e por outras instituições científicas. Já a categoria “tempestade de calor”, seus critérios de 1% da superfície terrestre e os nomes Vera ou Raimundo pertencem ao sistema desenvolvido pela Reuters. Sua utilidade poderá ser testada por pesquisadores e instituições, mas não deve ser apresentada como nomenclatura meteorológica internacional já consolidada.
Também não é metodologicamente correto atribuir automaticamente à mesma causa todos os desastres ocorridos dentro de uma dessas estruturas. O calor pode aumentar evaporação, agravar secas, favorecer incêndios, pressionar organismos vivos e reduzir produtividade agrícola, mas o peso específico das mudanças climáticas em cada incêndio, enchente, colapso ecológico ou perda de safra depende de investigação própria. A existência de lacunas causais em episódios individuais não reduz, contudo, a consistência do quadro geral: extremos quentes estão se tornando mais frequentes e intensos em um planeta aquecido pelas emissões humanas.
O núcleo factual é que grandes áreas da Terra permanecem hoje muito mais expostas a episódios prolongados de calor anormal do que há seis décadas, com consequências observáveis sobre mortalidade, agricultura, recursos hídricos, biodiversidade, energia, educação e infraestrutura. Diante de um El Niño potencialmente excepcional entre o final de 2026 e o início de 2027, os próximos desdobramentos dependerão do monitoramento da OMM, NOAA, Copernicus, serviços meteorológicos nacionais, autoridades sanitárias, sistemas de defesa civil e governos locais. Ao mesmo tempo, políticas de redução das emissões continuarão determinantes para limitar o aquecimento de longo prazo, enquanto medidas de adaptação terão a função imediata de reduzir perdas humanas, sociais e econômicas diante de extremos que já integram a realidade climática contemporânea.
Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia




