VLT de Salvador avança no Subúrbio Ferroviário e impulsiona requalificação urbana com esporte, lazer e mobilidade

A implantação do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) de Salvador e Região Metropolitana avança no Subúrbio Ferroviário e já projeta mudanças que vão além da mobilidade urbana. Com cerca de 60% de avanço físico no Trecho 1, o empreendimento começa a redesenhar a paisagem local com foco em requalificação urbana, lazer, esporte e valorização territorial. O projeto prevê a criação de quadras de beach tennis, campo de futebol, skate park, áreas de circulação mais seguras e novos espaços de convivência, em uma estratégia que busca integrar transporte público e uso qualificado do espaço urbano.

VLT amplia expectativas de valorização no Subúrbio Ferroviário

A transformação em curso é acompanhada de perto por moradores antigos da região. Josevaldo Evangelista, morador do Subúrbio Ferroviário desde 1977, afirma que a expectativa em torno do novo modal reacendeu a esperança de melhorias estruturais para os bairros atendidos. Segundo ele, a chegada do VLT representa uma possibilidade concreta de valorização da área e de mudança na forma como a região é percebida pelo restante da cidade.

O relato do aposentado reflete uma demanda histórica por investimentos no Subúrbio Ferroviário, área de forte densidade populacional e importância social para Salvador. Ao recordar o período em que o antigo trem circulava pelos trilhos, Josevaldo associa o novo projeto a uma retomada de perspectivas para o território, agora sob uma lógica mais ampla de urbanização e integração.

Nesse contexto, o VLT surge não apenas como uma obra de infraestrutura de transporte, mas como um vetor de reorganização do espaço urbano. A proposta apresentada para o trecho em implantação indica que o projeto busca combinar deslocamento, acessibilidade e permanência, articulando funções que tradicionalmente aparecem dissociadas em grandes intervenções públicas.

Requalificação urbana prevê parque linear e novos espaços públicos

De acordo com o presidente da Companhia de Transportes do Estado da Bahia (CTB), Eracy Lafuente, as intervenções previstas no entorno do sistema foram desenhadas para produzir impactos que extrapolam a circulação de passageiros. Segundo ele, está em construção o que define como o maior parque linear da cidade, acompanhado de paisagismo e obras de urbanização ao longo do traçado.

Entre as medidas previstas estão a remoção de antigos muros, a abertura de passagens seguras, a implantação de novos passeios e a instalação de equipamentos voltados ao uso cotidiano da população. As paradas do VLT também deverão contar com estruturas de apoio urbano, como playgrounds e academias ao ar livre, concebidas para ampliar o uso social dos espaços públicos.

A lógica do projeto indica uma tentativa de recuperar áreas antes marcadas por barreiras físicas, descontinuidade urbana e circulação limitada. Ao substituir trechos fechados por áreas acessíveis e urbanizadas, a intervenção pode favorecer tanto a mobilidade quanto a convivência comunitária, um ponto central no discurso institucional que acompanha a obra.

Skate park e equipamentos esportivos reforçam foco na juventude

Um dos destaques do projeto é a construção da maior pista de skate de Salvador, planejada com dimensões e características técnicas compatíveis com a realização de competições nacionais e internacionais. A proposta amplia o alcance do VLT para além do transporte, inserindo o esporte como elemento estruturante da requalificação urbana.

Segundo Bruno Pires, consultor do projeto, a pista foi concebida para reunir padrão técnico elevado e uso cotidiano da população. A ideia, conforme afirmou, é que o equipamento funcione simultaneamente como espaço de lazer, convivência e eventual sede de eventos esportivos de maior porte, conferindo nova centralidade ao bairro.

O arquiteto Ian de Aragão, responsável pelo projeto das pistas, informa que o desenho do equipamento buscou dialogar com a paisagem característica do Subúrbio Ferroviário. A referência visual ao mar e à atmosfera litorânea da região procura inserir o skate park em um contexto urbano e simbólico mais amplo, valorizando a identidade local no processo de intervenção.

Juventude local vê no projeto uma nova oportunidade

Para moradores e praticantes do esporte, a nova estrutura pode alterar de forma concreta a rotina da juventude suburbana. A skatista Tifany Brasil, de 17 anos, avalia que a construção da pista representa uma oportunidade de acesso mais próximo a um equipamento adequado para treinamento, sem a necessidade de deslocamentos mais longos por ônibus ou metrô.

O depoimento da adolescente evidencia um dos efeitos potenciais da obra: a descentralização de equipamentos de qualidade, antes concentrados em outras áreas da cidade. Ao aproximar infraestrutura esportiva dos bairros periféricos, o projeto pode ampliar o acesso à prática esportiva e reduzir barreiras geográficas para jovens atletas e frequentadores.

Além da pista, a implantação do skate park inclui pavimentação, nova iluminação e melhorias no sistema viário do entorno. Essas intervenções complementares tendem a reforçar a segurança e a funcionalidade da área, ao mesmo tempo em que podem atrair visitantes e estimular novos usos do espaço público.

Integração com a paisagem e potencial de atração urbana

O projeto também aposta no potencial paisagístico do bairro como parte da transformação urbana. A conexão entre a cidade e a faixa de areia aparece como um dos eixos de valorização do território, associando mobilidade, vista para o mar e fruição do espaço urbano em uma região marcada por forte relação com a orla.

Essa diretriz pode contribuir para reposicionar o Subúrbio Ferroviário no imaginário urbano de Salvador, historicamente atravessado por desigualdades territoriais e menor visibilidade dos investimentos públicos. Ao incorporar esporte, lazer e paisagismo ao traçado do VLT, o projeto busca produzir uma imagem de renovação e pertencimento.

Ao mesmo tempo, o sucesso dessa estratégia dependerá da capacidade de manutenção dos equipamentos, da segurança dos espaços e da efetiva apropriação da infraestrutura pela comunidade. Em obras desse tipo, o desenho urbano é apenas uma parte da equação; a continuidade da política pública costuma ser o ponto em que a retórica encontra a vida real, esse laboratório implacável.

Obras avançam em dois trechos e previsão aponta operação assistida em 2026

No estágio atual, o Trecho 1 do VLT registra cerca de 60% de avanço físico, enquanto o Trecho 2, que fará a ligação entre Paripe e Águas Claras, alcança aproximadamente 40% de execução. O sistema foi planejado para conectar áreas estratégicas de Salvador e da Região Metropolitana, com integração ao metrô e a outros modais de transporte público.

A proposta é estruturar uma malha de deslocamento mais articulada, ampliando a capacidade de conexão entre o Subúrbio Ferroviário e outros pontos da capital e da RMS. A integração entre modais é um dos elementos centrais do projeto, sobretudo em uma cidade marcada por deslocamentos longos e por forte dependência do transporte coletivo.

Segundo a previsão informada, a operação assistida do Trecho 1 deverá começar no segundo semestre de 2026. Esse cronograma, se mantido, representará uma etapa decisiva para aferir não apenas o funcionamento do sistema, mas também os efeitos concretos da requalificação urbana anunciada para o entorno do VLT.

Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia

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