Gaeco cumpre buscas contra vereador Gordinho da Favela e secretário Luciano Sandes; Justiça determina afastamentos em Salvador

O vereador licenciado de Salvador George Carlos Reis Pereira (PP), conhecido como Gordinho da Favela, e o secretário municipal de Articulação Comunitária e Prefeituras-Bairro, Luciano Sandes, foram alvos, nesta segunda-feira (13/07/2026), de mandados de busca e apreensão cumpridos pelo Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas e Investigações Criminais (Gaeco), unidade do Ministério Público do Estado da Bahia. Segundo informações publicadas por veículos da imprensa baiana, a investigação apura a possível atuação de uma organização criminosa estruturada em núcleos empresarial, operacional e de agentes públicos, com suspeitas relacionadas a contratos da administração municipal de Salvador.

As diligências foram realizadas em diferentes endereços vinculados aos investigados, incluindo um imóvel situado em condomínio de alto padrão na capital baiana. Além dos dois agentes públicos, empresários e empresas com relações contratuais ou comerciais com o Município também teriam sido alcançados pelas medidas judiciais.

Até o fechamento das primeiras reportagens sobre o caso, o Ministério Público da Bahia ainda não havia divulgado nota detalhada com o nome da operação, a íntegra das suspeitas, os valores supostamente desviados, o período investigado ou a relação completa dos alvos.

Justiça determina afastamento cautelar dos agentes públicos

Segundo reportagem do jornal A Tarde, a Justiça da Bahia determinou o afastamento cautelar de Gordinho da Favela e Luciano Sandes de suas respectivas funções públicas.

A decisão teria sido proferida pela juíza Martha Carneiro Terrin e Souza, que considerou necessário interromper o acesso dos investigados à estrutura administrativa e preservar documentos, registros físicos e dispositivos eletrônicos relevantes para a apuração.

A magistrada menciona a necessidade de “interromper a sangria de recursos públicos” e de neutralizar a capacidade operacional da suposta organização criminosa. A decisão sustenta que o vínculo funcional e político poderia, em tese, ser utilizado como instrumento para a continuidade das irregularidades ou para a ocultação de elementos probatórios.

O afastamento possui natureza cautelar. A medida não representa condenação, reconhecimento definitivo de culpa ou antecipação de pena, mas busca preservar a investigação e impedir eventual interferência dos investigados sobre documentos, servidores, contratos ou sistemas administrativos.

Investigação alcançaria contratos da Seman e da Desal

De acordo com informações apuradas pelo portal AratuON, a investigação pretende desarticular uma organização supostamente dividida em núcleos empresarial, operacional e de agentes públicos.

O grupo teria atuado em contratos relacionados à Secretaria Municipal de Manutenção da Cidade (Seman) e à Companhia de Desenvolvimento Urbano de Salvador (Desal). As suspeitas mencionadas pela reportagem envolvem possíveis práticas de:

  • fraude em procedimentos licitatórios;
  • peculato;
  • lavagem de dinheiro;
  • corrupção;
  • possível superfaturamento de contratos públicos.

A mesma apuração indica que as medidas judiciais alcançaram 19 investigados e cinco empresas. Esses números, entretanto, ainda dependem de confirmação oficial do Ministério Público da Bahia ou da divulgação da decisão judicial que autorizou as diligências.

Outras reportagens publicadas nesta segunda-feira confirmam que o vereador e o secretário foram alvos das buscas, mas registram que, inicialmente, o motivo específico da operação não havia sido informado oficialmente pelo MPBA.

Empresários e empresas também foram alcançados

As informações fornecidas mencionam ainda um empresário identificado apenas pelo primeiro nome, Lázaro, e a empresa G3 Polaris. A empresa teria atuação em Salvador em áreas como prestação de serviços de guincho e sonorização. Supostamente, um de seus proprietários ou representantes seria um dos principais alvos da operação.

Vereador afirma desconhecer conteúdo da investigação

Por meio de sua assessoria, Gordinho da Favela informou que ainda não teve acesso ao processo conduzido pelo Ministério Público da Bahia e, por essa razão, desconhecia os elementos utilizados para fundamentar a operação.

“Não tive acesso aos autos da investigação”, declarou o parlamentar, acrescentando que permanece à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos.

O vereador também afirmou confiar no devido processo legal e disse acreditar que o desenvolvimento da investigação demonstrará a legalidade de suas condutas e sua inocência.

A Câmara Municipal de Salvador informou ao AratuON que George estava licenciado do mandato. O afastamento parlamentar já ocorria em razão de sua movimentação política como pré-candidato a deputado federal nas eleições de 2026, embora a decisão judicial também tenha estabelecido expressamente a suspensão cautelar do exercício da função pública.

Gordinho da Favela é filiado ao Progressistas e integra o campo político governista na capital baiana, associado à administração do prefeito Bruno Reis e ao grupo liderado pelo ex-prefeito de Salvador ACM Neto.

Luciano Sandes possui trajetória em obras e manutenção urbana

Luciano Sandes ocupa a Secretaria Municipal de Articulação Comunitária e Prefeituras-Bairro, estrutura responsável pela interlocução da Prefeitura de Salvador com as comunidades e pela descentralização de serviços públicos.

Engenheiro sanitarista e ambiental urbano, com mestrado na área de engenharia ambiental e urbana, Sandes acumulou cargos relacionados à infraestrutura, manutenção urbana, obras e gestão de contratos.

Antes de assumir a atual secretaria, exerceu funções na Secretaria Municipal de Manutenção da Cidade, na Secretaria de Infraestrutura e Obras Públicas e na Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado da Bahia. A Prefeitura de Salvador registra que o gestor possui cerca de duas décadas de atuação em infraestrutura urbana e administração de obras e contratos.

A passagem de Sandes pela Seman assume relevância para a apuração porque reportagens associam parte das suspeitas a contratos da pasta e da Desal. A existência de uma trajetória profissional nesses órgãos, contudo, não comprova participação em ilícitos. Caberá aos investigadores demonstrar eventual vínculo entre decisões administrativas, procedimentos licitatórios, pagamentos e benefícios indevidos.

Material apreendido deverá orientar próximos passos

A fase iniciada com as buscas e apreensões deverá concentrar-se na análise de aparelhos celulares, computadores, documentos, registros contábeis, contratos, mensagens e movimentações financeiras eventualmente recolhidos.

Esses elementos poderão confirmar ou afastar as hipóteses investigativas, identificar beneficiários, estimar possíveis prejuízos ao erário e esclarecer o papel individual de servidores, agentes políticos, empresários e representantes de empresas.

Também deverá ser apurado se os contratos investigados foram efetivamente executados, se os preços correspondiam aos valores de mercado, se houve direcionamento das licitações e se pagamentos realizados pela Prefeitura de Salvador foram posteriormente transferidos ou ocultados por meio de pessoas e empresas interpostas.

Não foram divulgadas, até o momento, informações confirmadas sobre prisões, bloqueio de contas, apreensão de valores em espécie ou indisponibilidade de bens.

Presunção de inocência e responsabilidade individual

Os investigados têm direito à presunção de inocência, ao acesso aos autos nos limites estabelecidos pela legislação, à assistência de defesa técnica e à contestação das medidas cautelares.

A busca e apreensão representa uma medida de obtenção e preservação de provas. O afastamento cautelar busca impedir interferências na investigação ou continuidade de possíveis irregularidades, mas não substitui o julgamento de mérito.

A eventual responsabilização criminal dependerá da demonstração de materialidade, autoria e dolo em relação a cada conduta. Da mesma forma, possíveis consequências administrativas, cíveis ou eleitorais deverão observar os respectivos procedimentos legais e não podem ser presumidas com base apenas na realização da operação.

Gaeco atua em investigações de maior complexidade

O Gaeco é a unidade especializada do Ministério Público da Bahia responsável por atuar em procedimentos investigatórios, inquéritos policiais e processos envolvendo organizações criminosas, corrupção de agentes públicos, lavagem de dinheiro e delitos de elevada complexidade ou repercussão social.

Criado em 2006 e posteriormente reestruturado, o grupo pode trabalhar em conjunto com órgãos policiais e outras instituições de fiscalização para coletar provas, mapear estruturas criminosas e identificar movimentações financeiras suspeitas.

Entre suas atribuições está o enfrentamento de organizações que utilizem agentes públicos, empresas ou estruturas administrativas para a execução ou ocultação de atividades ilícitas.

A atuação do grupo em uma operação não significa, isoladamente, que todos os alvos integrem uma organização criminosa. Essa conclusão depende da análise do material apreendido, da individualização das condutas e da eventual apresentação de denúncia pelo Ministério Público, seguida de processo judicial com direito à ampla defesa e ao contraditório.

Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia

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