Delação de Daniel Vorcaro avança e expõe rede de relações com ministros, políticos e agentes públicos no caso Banco Master
O empresário Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, formalizou na quinta-feira (19/03/2026) um acordo de confidencialidade com a Polícia Federal (PF) e a Procuradoria-Geral da República (PGR), etapa inicial para a negociação de uma delação premiada no âmbito da investigação sobre fraudes no sistema financeiro. Preso preventivamente desde 4 de março, o ex-banqueiro foi transferido para a Superintendência da PF em Brasília, enquanto as apurações avançam e passam a atingir um amplo conjunto de autoridades dos Três Poderes, operadores políticos e agentes do sistema financeiro nacional.
Avanço da delação e reconfiguração da estratégia jurídica
A assinatura do termo de confidencialidade estabelece sigilo absoluto nas tratativas e abre caminho para que Vorcaro forneça informações que possam resultar em benefícios penais, desde que contribuam de forma efetiva para a produção de provas.
A defesa do empresário passou a ser conduzida pelo advogado José Luis Oliveira Lima, figura conhecida por sua atuação em acordos de colaboração premiada, incluindo o caso de Léo Pinheiro, ex-presidente da OAS. A estratégia indica uma mudança clara de postura, com foco na cooperação com as autoridades.
O novo defensor já iniciou interlocução com o ministro André Mendonça, relator do inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF), que assumiu o caso após a saída do ministro Dias Toffoli, que posteriormente se declarou suspeito para atuar no processo.
Estrutura do esquema: quatro núcleos operacionais
As investigações da Polícia Federal descrevem um modelo sofisticado de engenharia financeira, estruturado para captar recursos com alta remuneração e direcioná-los a ativos de risco e baixa liquidez, frequentemente vinculados ao próprio grupo econômico.
O esquema foi dividido em quatro núcleos:
- Núcleo financeiro, responsável pela estrutura das fraudes;
- Núcleo de corrupção institucional, com atuação junto a órgãos como o Banco Central;
- Núcleo de lavagem de dinheiro, com uso de empresas interpostas;
- Núcleo de intimidação e obstrução, com monitoramento ilegal de adversários, jornalistas e autoridades.
Entre os investigados e presos estão:
- Fabiano Zettel, apontado como operador financeiro e responsável por pagamentos;
- Marilson Roseno da Silva, policial federal aposentado, ligado ao núcleo de monitoramento;
- Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Sicário”, que morreu sob custódia após tentativa de suicídio.
O conjunto indica a existência de uma organização estruturada com múltiplas frentes de atuação, inclusive com capacidade de interferência institucional.
Relações no Executivo: Planalto, Guido Mantega e Banco Central
A investigação revela que o Banco Master estabeleceu acesso direto a estruturas do Poder Executivo federal, incluindo o Palácio do Planalto.
O ex-ministro da Fazenda Guido Mantega atuou como intermediador de interesses do banco junto ao governo. Ele se reuniu ao menos cinco vezes, em 2024, com Marco Aurélio Santana Ribeiro (Marcola), chefe do gabinete pessoal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
No encontro de 4 de dezembro de 2024, Mantega esteve acompanhado de Vorcaro. O nome do empresário não constava na agenda oficial. Ao final da reunião, ambos solicitaram audiência com o presidente Lula, que os recebeu no gabinete presidencial, com a presença de ministros e de Gabriel Galípolo, então diretor do Banco Central e posteriormente presidente da instituição.
No âmbito do Banco Central, representantes do Master participaram de 65 reuniões com integrantes da cúpula da autarquia desde 2018. Desse total:
- 24 ocorreram durante a gestão de Roberto Campos Neto (2019–2024);
- 41 ocorreram já sob a presidência de Gabriel Galípolo (2025).
A PF aponta ainda que dois servidores do Banco Central — Paulo Sérgio Souza e Belline Santana — teriam repassado informações ao grupo investigado.
Judiciário sob escrutínio: Moraes, Toffoli e Lewandowski
As investigações também alcançam relações com integrantes do Poder Judiciário.
No caso do ministro Alexandre de Moraes, foram identificadas mensagens atribuídas a Vorcaro com o teor “Conseguiu bloquear?”, encontradas em aparelho apreendido pela PF. O ministro negou ter recebido ou respondido às mensagens.
Outro ponto envolve a advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro, cujo escritório recebeu R$ 80 milhões do Banco Master ao longo de 22 meses, em contrato firmado em abril de 2025, no contexto de negociações para venda da instituição ao BRB.
O ministro Dias Toffoli, que inicialmente relatou o caso no STF, teve ligação indireta com operações envolvendo ativos do resort Tayayá, posteriormente adquiridos por fundos ligados à gestora Reag, associada ao Master. Toffoli afirmou não ter recebido valores diretamente de Vorcaro ou de Fabiano Zettel e declarou suspeição no processo.
Já o ex-ministro do STF e ex-ministro da Justiça Ricardo Lewandowski prestou consultoria jurídica ao Banco Master por meio de seu escritório, que recebeu cerca de R$ 6,5 milhões entre 2023 e 2025, com pagamentos mensais de aproximadamente R$ 250 mil.
Relações políticas e contratos com figuras públicas
A investigação também aponta relações financeiras com políticos e dirigentes partidários.
Entre os nomes citados:
- ACM Neto, ex-prefeito de Salvador e vice-presidente do União Brasil, cuja empresa A&M Consultoria recebeu cerca de R$ 3,6 milhões do Master e da gestora Reag entre 2023 e 2024;
- Antonio Rueda, presidente nacional do União Brasil, e sua irmã Maria Emília Rueda, que atuaram como advogados do banco;
- Jaques Wagner, líder do governo no Senado, cuja nora, Bonnie de Bonilha, teve empresa contratada pelo Master, recebendo cerca de R$ 11 milhões em 2021;
- Hugo Motta, presidente da Câmara dos Deputados, cuja cunhada, Bianca Medeiros, obteve empréstimo de R$ 22 milhões junto ao banco;
- Ibaneis Rocha, governador do Distrito Federal, cujo filho, o advogado Caio Barros, recebeu R$ 43 milhões em operação envolvendo créditos de honorários.
As relações se deram, em muitos casos, por meio de contratos privados, consultorias ou operações financeiras, o que amplia a complexidade da análise jurídica sobre eventuais irregularidades.
Interseção entre poder financeiro e institucional
O caso Banco Master revela um padrão estrutural: a formação de redes de influência que atravessam o sistema financeiro, o ambiente político e o aparato estatal. A amplitude dos nomes envolvidos indica que a investigação deixou de ser apenas um caso econômico para assumir dimensão institucional.
A eventual delação de Daniel Vorcaro tende a aprofundar esse cenário, podendo esclarecer como se davam os fluxos de influência, a circulação de informações sensíveis e a aproximação com centros decisórios do Estado. Trata-se de um ponto sensível, que pode redefinir a percepção pública sobre os limites entre relações institucionais legítimas e práticas potencialmente indevidas.
Ao mesmo tempo, a multiplicidade de contratos, consultorias e vínculos formais exige cautela. Nem todas as relações descritas configuram, por si só, irregularidade. O desfecho dependerá da capacidade da investigação em diferenciar atuação profissional legítima de eventuais práticas ilícitas, especialmente em um ambiente historicamente marcado por proximidade entre elites políticas e econômicas.
*Com informações do jornal O Globo, Folha de S.Paulo, Estadão, Poder360, Metrópoles, CNN, Revista Veja e Agências Brasil, Reuters, RFI, Sputnik e BBC Brasil.
Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia




