EUA impõem nova tarifa ao Brasil; Ministro Mauro Vieira acusa exigência de “capitulação” e governo prepara reação comercial

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou na quinta-feira (16/07/2026) que os Estados Unidos exigiram a abertura completa de setores da economia brasileira sem oferecer contrapartidas durante as negociações comerciais entre os dois países. Segundo o chanceler, a postura do governo norte-americano representou uma tentativa de “capitulação” do Brasil e antecedeu a entrada em vigor de uma tarifa adicional de 25% sobre parte das exportações brasileiras.

A declaração foi concedida após o governo dos Estados Unidos anunciar a aplicação da nova sobretaxa, justificando a medida com alegadas práticas comerciais consideradas desleais. O governo brasileiro rejeita essas justificativas, sustenta que a decisão possui motivação política e informa que recorrerá aos instrumentos previstos na legislação nacional e às regras da Organização Mundial do Comércio (OMC).

De acordo com Mauro Vieira, o Brasil participou de dezenas de rodadas de negociação desde março de 2025, mantendo diálogo permanente com representantes da Casa Branca, do Departamento de Estado e do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), sem que houvesse consenso para evitar a imposição das tarifas.

Mauro Vieira afirma que EUA exigiram abertura irrestrita de mercados

Durante a coletiva de imprensa realizada na quinta-feira (16/07/2026), o chanceler declarou que os Estados Unidos solicitaram a abertura total, irrestrita e exclusiva de setores da economia brasileira, sem apresentar benefícios equivalentes para os produtos nacionais.

Segundo Vieira, o governo norte-americano demonstrou insatisfação pelo fato de o Brasil não aceitar as condições apresentadas durante as negociações.

“O que foi exigido representava uma capitulação”, afirmou o ministro ao explicar que as propostas não previam reciprocidade comercial.

O chanceler acrescentou que o governo brasileiro buscou manter os canais diplomáticos abertos durante todo o processo de negociação.

Governo rebate declarações de Marco Rubio

Mauro Vieira também respondeu às declarações do secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, que atribuiu o fracasso das negociações ao “ego” do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Segundo o ministro, a posição do presidente brasileiro reflete a defesa da soberania nacional e dos interesses econômicos do país, e não uma postura pessoal.

Vieira afirmou ainda que Rubio apresentou informações incorretas sobre o empenho brasileiro nas negociações e recordou que ocorreram mais de 30 reuniões presenciais, virtuais e por telefone desde março de 2025, incluindo 11 contatos diretos entre representantes de alto nível dos dois governos.

Brasil atribui tarifa a motivação política

O governo brasileiro voltou a defender que a imposição das tarifas possui motivação política.

Durante o pronunciamento, Mauro Vieira lembrou que, em julho de 2025, os Estados Unidos já haviam aplicado uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, contexto que, segundo o ministro, esteve relacionado às críticas norte-americanas sobre decisões do Poder Judiciário brasileiro envolvendo os processos decorrentes dos atos de 8 de janeiro.

O chanceler afirmou que a investigação conduzida pelo USTR, baseada na Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos, foi aberta nesse contexto.

Vieira ressaltou ainda que os Estados Unidos acumularam superávit de US$ 424 bilhões nas trocas de bens e serviços com o Brasil nos últimos 15 anos e destacou que, em 2025, 76% das importações norte-americanas ingressaram no Brasil sem pagamento de imposto de importação, incluindo oito dos dez principais produtos exportados pelos EUA ao mercado brasileiro.

Tarifa de 25% atinge parte das exportações brasileiras

A nova sobretaxa entrou em vigor na quinta-feira (16/07/2026) e, segundo levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI), deverá atingir aproximadamente 26% das exportações brasileiras destinadas aos Estados Unidos.

A entidade calcula que cerca de 4 mil produtos brasileiros passam a ser alcançados pela medida, correspondendo a aproximadamente US$ 11 bilhões (cerca de R$ 56 bilhões) em exportações.

Apesar disso, parte dos produtos inicialmente incluídos foi retirada da lista final divulgada por Washington, reduzindo em aproximadamente US$ 2,3 bilhões (R$ 11,3 bilhões) o impacto estimado para a indústria nacional.

Segundo a CNI, essa redução ocorreu após manifestações do setor produtivo brasileiro e norte-americano durante consultas públicas promovidas pelo USTR.

Goldman Sachs projeta maior carga tarifária da América Latina

Levantamento do Goldman Sachs indica que a tarifa efetiva incidente sobre os produtos brasileiros deverá alcançar 16,8%, o maior percentual entre os principais países latino-americanos afetados pela medida.

As projeções apontam percentuais inferiores para outros países da região:

  • Brasil: 16,8%;
  • Peru: 8,5%;
  • México: 7,2%;
  • Argentina: 7,1%.

O banco observa que a tarifa efetiva é inferior aos 25% anunciados porque parte das exportações brasileiras permaneceu isenta da nova cobrança.

A instituição também avalia que eventuais medidas de retaliação comercial por parte do Brasil poderão provocar novas respostas dos Estados Unidos.

Setores exportadores devem concentrar impactos

De acordo com a CNI, alguns segmentos deverão registrar impactos mais significativos.

O levantamento aponta que:

  • 81% das exportações do setor madeireiro destinadas aos Estados Unidos serão atingidas;
  • 51% dos produtos químicos passarão a pagar a nova tarifa;
  • 38% dos alimentos exportados também serão alcançados pela medida.

A entidade destaca ainda que aproximadamente 60% dos produtos atingidos correspondem a bens intermediários utilizados pela indústria norte-americana, e que o Brasil permanece como principal fornecedor em 10 dos 13 principais itens incluídos na nova política tarifária.

Governo contesta críticas ao Pix e ao desmatamento

Entre os argumentos apresentados pelos Estados Unidos para justificar a investigação comercial estão o funcionamento do Pix, o comércio digital, questões de propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e temas relacionados ao desmatamento.

Mauro Vieira classificou como “descabidas” as acusações envolvendo o sistema de pagamentos instantâneos.

Segundo o ministro, o Pix é uma infraestrutura pública administrada pelo Banco Central, aberta à participação de instituições financeiras nacionais e estrangeiras, não configurando prática de concorrência desleal.

O chanceler também afirmou que o Brasil reduziu os índices de desmatamento na Amazônia e no Cerrado desde 2022, sustentando que as justificativas apresentadas pelos Estados Unidos não possuem respaldo nos dados apresentados pelo governo brasileiro.

Por fim, o Executivo informou que pretende utilizar os mecanismos previstos na Lei da Reciprocidade Econômica, ampliar a diversificação dos mercados de exportação e discutir a medida no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC).

*Com informações da Agência Brasil e Sputnik News.

Redação do Jornal Grande Bahia

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